A CAPITAL : “DE KARL MARX”

Por : Pettersen Filho

Fluíam audaciosamente os primeiros anos da Década de Setenta e o País amordaçado pela insensatez da Ditadura Militar , imposta pelos generais de 1964, perambulava nas ruas dos bairros, sem saber ao certo, em meio ao percalço das sombras da madrugada, em quem confiar.

Insinuavam-se, depois de inescrupulosamente cassadas as agremiações estudantis e sindicais daqueles anos de chumbo, os primeiros movimentos organizados de contestação armada ao Regime , enquanto jovens idealistas e revolucionários entrincheiravam-se moribundamente na selva do Araguaia, e nos altiplanos do Caparaó, região fronteiriça a que pertence o Professor , meu amigo, João Leite de Almeida , entre o Estado do Espírito Santo e as minhas Minas Gerais, ensaiando uma parca e heróica resistência.

Avesso a este mundo de regras rígidas e sopapos reais, o meu amigo João Leite, muito mais afeto a literatura e a filosofia, através dos quais habilitou-se humanisticamente como Professor de História, de uma das hoje mais prestigiadas redes de ensino da Capital capixaba, de posse de uma dessas velhas mochilas tipo hippie, “ com a cara e a coragem” , partiu para terras mais calmas da antiga Capital da República, desembarcando para tentar graduação em nível superior no Rio de Janeiro, onde, ao ritimo do “faça amor, não faça guerra” , tão propalado naqueles dias pelos militares, ao sabor do Movimento Hippie , também ingressou na Escola de Teatro e Artes Cênicas.

Contudo, filosofia a parte, “ nem só de pão vive o homem ”, e, para manter a sua própria existência, minimamente, na selva de pedra do Rio de Janeiro, João Leite tratou logo de conseguir um emprego, enquanto também estudava, alheio as desgraças políticas e a repressão no Brasil.

Foi assim que o João conseguiu seu primeiro trabalho em uma das editoras da época, que, para malgrado, refletindo a horda de Censura que varria as redações dos jornais e os palcos dos teatros, também sofria constantes embargos, com a classificação ou desclassificação de alguns títulos, em que obras inteiras eram retiradas das prateleiras pelos Censores , sem qualquer explicação.

Dentre os proibidos, enquanto músicos do calibre de Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso e Gilberto Gil eram banidos do Brasil, a simples posse do livro de Karl Marx , “ O Capital ”, então, era “ cana-dura” na certa. Automática associação a atividades subversivas, punida imediatamente com cacetadas e pau-de-arara.

Foi exatamente neste quadro que, inocentemente, dentre aquela caixa no almoxarife da Editora, destinada ao “ lixo ”, que João Leite, um belo dia, apanhou o livro do notório autor lusitano, Eça de Queiroz , intitulado “A Capital” , romance singelo e apolítico, e deu à rua com ele, onde um milico , tão comum naqueles auspiciosos dias, realizou contra si uma ferrenha busca, e, ignorante quanto à origem do material dito “ subversivo ”, ao toque do cassetete, levou João Leite para ter com o Delegado: ... E tome porrada no “ comuna subversivo ”...

Mais tarde, sem saber ao certo, bem, por que apanhara, foi que João Leite houve de ter com o Delegado, quem, ao deparar com o tal livro, “ A Capital ”, virou para o “ Gambé”, jargão como também eram conhecidos os recrutas , de então , e disse: “Seu ignorante: Solta o Homem. O livro proibido se trata do “Capital” de Karl Marx, e não “A Capital” de Eça de Queiroz”.. .

Contudo, História a parte, “ tapa dado não se tira”. Isso bem o sabe o meu amigo comuna “João Leite de Almeida”.

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