Inconfidente Maneiro

Por : Aparecido Raimundo

A ntuérpio Pettersen Filho não é como se descreve logo no pórtico de seu livro “Inconfidente Mineiro”, 111 páginas, editora independente – abril de 2002, um “poeta desconhecido”. O fato de nunca ter participado de  concurso, de não ter feito especialização no exterior e inda de nunca ter recebido Prêmio Algum, lhe tira o brilho da alma, nem o encanto do viço, tampouco o veio poético dos grandes pensadores como Drumonnd, Castro Alves, Gonçalves Dias e tantos outros.

A prova está em “Retirante” página 11, onde o escritor, com simplicidade, a alma à deriva, capta a energia das estrelas, vê a lua pelo noturno véu de sedas e observa, inconsciente, mas com os pés grudados no chão:

“Tenho assistido homens abandonarem famílias,  costumes e até moral”, pensando assim fugirem da agonia e opressão de se estar... vivo!

Alguns não se satisfazem, trocam o Norte pelo sul e vice-versa.”

Penso ser esse o caso desse mineiro de trinta e tantos anos. Ele não se satisfaz com o que está à sua volta. Quer sempre mais. Busca constantemente, no dia-a-dia encontrar a si mesmo como se olhasse a cada segundo para uma centena de espelhos pendurados a sua frente. Como o seu “Retirante”, persegue lugares novos, deseja uma vida repleta e abundante. Nessa busca incessante de lugares ainda não fecundados, abraça com a meiguice que emana da sua ternura os muitos “Joãos e Marias” (pág. 13) que “trafegam nos subterrâneos da história...”.

Antuérpio talvez desconheça o mundo imenso e maravilhoso que se descortina dentro de si, um universo repleto da mais pura poesia, do sublime amor pelo próximo, pelo humilde, pelo sofrido, pelo guerreiro, enfim, pela criatura comum que mistura o “Incompleto” com a “Expectativa”, seja ao “Sabor de Sabonete” ou “Folheando jornal”. Para ele, - ou melhor, para o poeta homem, - não importam os “Jornais da Noite”, mas ao homem colecionador de palavras interessa mostrar a todos, de cara limpa, que “somente aos colibris cabem as flores no jardim”.

É dele a bucólica “Infância” (pág. 35) que abaixo se transcreve alguns versos:
“Pudesse eu
ser um passageiro
de ônibus
circulando as ruas do meu bairro
à deriva do destino.
Pudessem as ruas
me comportarem
voltarem os heróis
que povoavam, repleta de sonhos
a minha infância.
Pudesse ainda
eu crer nos paralelepípedos...
Recuperar os anos perdidos
sentado nos bancos da praça
Esperando o amor vir”.

Como se conclui, Antuérpio embrenha os pensamentos por palavras simples, sem o teor  alcoólico das métricas tradicionais e sem a rebusques  dos que se dizem entendidos na língua pátria. Talvez o amor na acepção mais ampla do seu significado não tenha chegado às vias de fato para o homem, como pessoa, mas está mais que evidente, se abriu em leque ao poeta, mostrando que a sua terra, apesar dos ventos contrários...

“Tinha palmeiras
onde cantava o sabiá
as aves que lá gorjeavam
não gorjeiam mais! ”
(in Minha Terra – pág. 55).
De igual forma, se conscientizou de que:
“Havia na praça
uma banda...
Na praça os casais
se reuniam
a vida acontecia
e ninguém notava
de tão feliz
que todo mundo era” .
(in Praça da Liberdade – pág 59).
Magoado e entristecido cantou o que o coração pedia:
“Lá perto de casa
havia um terreno baldio...
nele eu tinha
o meu pé de flor.
Lá perto de casa
havia um terreno baldio...
nele a criançada
se divertia.
Lá perto de casa
havia um terreno baldio...
nele construíram
um enorme edifício! ”.
(in O Edifício – pág. 61).


Por tudo isso, a sua dor, (embora desse vertigem e fizesse sua voz em soluços e as mãos tremulas de fadiga), a sua dor
“é de rosa
é uma dor
que dói tão fundo
que só sente o espírito.”
(in Dor – Pág. 73).


Todavia, o homem segue em frente. Sofre , chora, e quando o faz sente que “as lágrimas tem gosto de cerveja e lhe embriagam”.
Quando respiro
O ar tem cheiro de cigarros
e tusso essência de livros
quando bebo
a água tem gosto de arsênico
e vomito rosas pelo chão.”
(in Vivo – pág. 43).

São, pois, com essas rosas que ele  nos brinda, nos encanta e nos faz viajar “Numa Noite que vem vestida de  luto”
(in Sabor de Sabonete  pág. 51)
que nos faz igualmente
“Passarinho
de galho em galho”
(in Passarinho – pág. 57)
que nos mostra que:
“No meio
da pedra
tinha
um caminho.
Tinha
Um caminho
No meio
Da pedra.
(in Drumommondiana – pág 63).

Antuérpio, apesar de tudo, não tropeça na pedra, não perde o caminho, nem se parte ao meio. Ao seu lado se movem montanhas como bocas famintas, furiosos rios de nervos à flor da pele, e do  vulcão adormecido dentro de si, explode a força motriz que se transforma  em versos. Ele estufa o peito e grita a plenos pulmões, na verdade tenta aliviar o sufoco que lhe invade o íntimo:

“Eu me traguei
nas entranhas
fumei fumaça
e cigarro
machuquei
e mordi
(in Amor – pág. 69).
Segue em frente, vai andando por essas entranhas
Profundas do túmulo interno,
Uma terra por dentro aterra,
E  a cada novo instante
Ressuscita continuamente o medo”.
Antuérpio não desiste e deslancha de encontro a imensidão. Sonha com “Copacabana”,
“menina usando tanga,
café na cama
muita grana”.
Mas em nenhum momento esquece que:
“Tem gente sofrendo também”.
(in Copacabana – pág. 89)

Esse é o nosso  poeta maior, o escritor de fôlego que “vivendo em uma sociedade hierarquicamente legalizada e vigente, baseada em uma única premissa, a da informação manipulada, sabe que a verdadeira liberdade circula à margem da imensidão das avenidas, oculta a sombra delas pelas algemas que condicionam os homens, trancafiando-os, independente de cor e raça, fazendo-os a todos prisioneiros potenciais da acomodação e da aparente mobilidade social”

(in Do Autor – pág. 7e8).
Pois é, Antuérpio:
“No agreste seco
da vida queimada
Há luz e sol
engarrafados
nesse caminho”.

Em resumo, a sua obra é isso: na sua tristeza está o escritor, na sua poesia reside o homem. No homem, a luta para se libertar dos fantasmas que rondam suas noites intranqüilas, repletas, talvez, de sonhos à espera de nascerem com um novo porvir. Diria que para Antuérpio, homem, falta a chave que abrirá a porta do amanhã, como ao poeta Antuérpio carece ter ao alcance das mãos, a liberdade plena, completa e sem resquícios desse passado que atormenta. Todavia, falta muito pouco ao homem e ao  poeta: na verdade eles só querem o direito de ser completamente feliz.
voltar