Rabisco de Cenários
Por : Aparecido Raimundo de Souza E u quero matar. Necessito, urgentemente, assassinar alguém. Tenho vários inimigos declarados. As pessoas que convivem comigo, no meu dia-a-dia, sabem quem são meus desafetos e, portanto, podem atestar que não minto. Resta, agora, premeditar. Maquinar, burilar, estudar todas as possibilidades e saídas estratégicas, Deixar tudo preparado para, no momento propicio, despachar a alma maligna para o além. Não pensem, entretanto, os senhores da justiça, os altos representantes dessa podre e famigerada justiça, que eu pretendo ir parar no xilindró. Saibam desde agora, xilindró é coisa para rico. Gente de posse. Cadeia foi feita para os Lalaus da vida, gente do tipo de Zuleido Veras, proprietário da Gautama, José Reinaldo Tavares, ex-governador de Estado do Maranhão, Alexandre de Maia Lago, sobrinho do governador do Maranhão, Adeilson Teixeira Bezerra, secretário estadual de infra-estrutura de Alagoas, Luiz Carlos Caetano, prefeito de Camaçari, Roberto Guimarães, presidente do Banco Regional de Brasília, (como era o nome daquele outro juiz com cara de galã de Hollywood que vendia sentenças?) Não lembro mais. Faz pouco tempo que a historia dele veio à tona, é bem verdade, mas, sinceramente, deu um branco. Devo ter pego a doença de Lula. As coisas andam acontecendo, ao meu redor, mas nunca sei de porcaria nenhuma. É uma espécie de amnésia convenientemente proveitosa, premeditada. Aflora quando há certos interesses em jogo. Não importa isso agora. O que faz diferença é quem, efetivamente, eu mandarei para a terra do nunca mais, ou seja, para a vala. Se quero ser processado? Perguntam, na maior cara de pau, se quero ser processado! Sim, faz parte do show. Se não houver um processo regular, vão dizer que é armação. Se houver, o embuste aparecera do mesmo jeito, porém, rotulado e com um nome mais bonito. De qualquer forma, com processo ou sem, uma coisa é certa. Não alimento a idéia maluca de ser preso em fragrante. Tampouco aspiro dividir uma cela imunda com criminosos de periculosidade duvidosa. Podem estar certos, outrossim, se tal coisa vier a acontecer, e eu me ver trancafiado numa delegacia qualquer, alegarei, ate o fim, de pés juntos, legitima defesa. Essa historia de legítima defesa não falha. Declararei mais: matei o elemento porque ele vinha assediando, há tempos, a Kikita, minha cadelinha de estimação. Com essa conversa pra boi dormir, espero responder ao processo em liberdade. Em paralelo, vamos pensar na galera sentada em cima do muro, que desconhece as leis e não faz a menor idéia do que acontece a quem tira a vida de um ser humano. Pretendo, em breves palavras, explicar a mágica de como escapar das iras do artigo 121 do Código Penal. Tudo vai depender, claro, da grana, da baba, do cacau. Trocado em miúdos. Preciso rechear bem os bolsos. Deixá-los cheio. Ser generoso. Ter liberalidade. Se não houver essa liberalidade, se o dinheiro for pouco, vão querer me imputar também o crime da tentativa de suborno ou qualquer coisa parecida com corrupção passiva. Em sendo assim, após consumar o delito, saber efetivamente a quem oferecer propina. Mais importante, me inteirar do quantum, para calar a boca da policia, ai subentendendo a equipe de investigadores e o delegado. Em nenhum momento quero ter em meus calcanhares uma viatura da delegacia de crimes contra a vida, ainda que chegue em frente ao portão lá de casa disfarçada de ambulância do SUS. Esse SUSTO poderia causar sérios problemas em meu organismo, mais precisamente na próstata. De repente, me veria obrigado a arrancar o pinto e jogar para os cachorros. Cá entre nós, prefiro ser despeitado, que as pessoas me alcunharem de DESPINTADO. Na minha idade, não cairia bem. Os senhores devem estar se questionando. Esse cara e louco? Parente de algum figurão do escalão do governo? Amigo do lobista da Mendes Júnior, Cláudio Gontijo, Delubio Soares, ou Dudu Mendonça? Esperem, esperem! Não fará parte do esquema do mensalão junto com José Genoino, Marcos Valério e Roberto Jefferson? Talvez, no passado, esse individuo prestou algum favor ao senhor Silvio Pereira, ou ao Jose Janene e, agora, aproveita toda essa balburdia para mostrar as garras? Numa ultima tentativa de adivinhação, concluirão. Vai ver é o verdadeiro dono da JR Radiodifusão ou, o panaca que comia, por detrás da moita, a dona Verônica Calheiros enquanto o presidente do senado rolava fogosamente na cama da jornalista Mônica Veloso, com quem acabou arranjando uma filha e uma pensão de R$ 12 mil a ser paga mensalmente. Asseguro, meus nobres amigos, nem uma coisa, nem outra. Exijo apenas, como cidadão comum, que se cumpra todas as etapas do jogo. Que as autoridades dispensem a minha pessoa o mesmo tratamento vip dado ao promotor que matou Diego Mendes Montanes. Quero todas as regalias e saídas estratégicas, toda a trama usada em meu favor. A justiça não vai ficar em falta comigo, como não ficou com ele. O sistema falido, idem. Tem que mostrar que, se estava falido para ele, terá que continuar falido para mim. Rogo, pois, desde agora, nada de fazerem da minha imagem algo parecido com a de um bode expiatório. Sugiro que para esse papel peguem o Waldir Pires, o Juniti Saito ou o José Carlos Pereira, respectivamente ministro da Defesa, comandante da Aeronáutica e presidente da Infraero. Não quero, por fim, que haja dois pesos e duas medidas, mesmo que os bois do Renan resolvam, de repente, sair das fazendas dele e vir parar no meu quintal. Certo? Errado! Não podemos esquecer, meus caríssimos, que este brasilsão é um saco de gatos de uma raça desgraçada conhecida no reino animal como Anac. Uma caixa-preta repleta de pilantras disfarçados de Cindacta. Um bando de desocupados e a espera da prorrogação da CPMF para continuar a mamar nas tetas dessa cobrança vergonhosa saída dos bolsos do Zé povinho. Adoraria, meus caros companheiros, assistir, de camarote, essa cambulhada de ladrões travestidos de parlamentares – carinhosamente apelidados de representantes do povo brasileiro - partindo para os quintos do inferno, numa dessas aterrissagens estranhas e inexplicáveis (como o Airbus da TAM na pista nova e recentemente entregue do aeroporto de Congonhas, em São Paulo ). Eu mostraria o focinho só para repetir o gesto obsceno do assessor especial de Lula, Marco Aurélio Garcia e do auxiliar dele, Bruno Gaspar. E acrescentaria, a minha paranóia, as palavras de John Mc Clane, “yippee-ki-yay, motherfucker!” Realmente esse sujeito é pirado da cachola. O melhor que temos a fazer é deixar o infeliz de lado e pensar em algo mais sólido, como por exemplo, uma maneira sadia de engordar as contas das cadernetas de poupança emnome dos nossos laranjas, amoitados por detrás dos bastidores. Pois bem. Diante desse quadro lastimável, como acreditar num Brasil onde o Chefe Supremo é um baderneiro, um embusteiro, preguiçoso, dissimilado, farsante e gozador? Lembra, em muito o Pica-Pau. Como levar a serio, um país, onde seu Representante Maior se contradiz em suas falas, não sabe de nada e, ainda por cima, além de cachaceiro, manda todo mundo tomar caju? Como confiar numa nação que mistura, a um só tempo, corrupção desenfreada, incompetência generalizada e vive atrelado a uma atavia incapacidade de lidar com situações de extrema gravidade? Como programar um futuro para meus filhos, onde o chão que piso não têm aquelas ranhuras conhecidas como grooving para aderirem a meus passos e evitar que leve um tombo? Como me atrever nesse torrão amado, onde a sua face está oculta, mascarada e o povo brasileiro caminha num enorme lodaçal de anarquismo e corrupção? Por mais que queira acreditar em dias melhores, acabo sempre por me deparar com os mafiosos do poder, impostores cheios de discursos teóricos, seus planos falhos e posturas entediadas de estupidez... Por tudo isso, eu quero matar. Matar e ficar impune. Livre. Quero continuar a vida normal, sem castigo, sem reprimendas, como se nada tivesse acontecido. Não penso em deixar de freqüentar a academia ou a promover os churrasquinhos à beira da piscina para os amigos mais íntimos. Se o promotorzinho de justiça pode, por que não eu? Qual a diferença entre nós? No que esse cidadão é mais capacitado que nossa formação acadêmica? Na mesma linha, onde esta a dessemelhança entre eu, ele, e o assassino de Leonardo, filho de dona Norma Drumond? Por que o traficante Elizeu Felício de Souza, o Zeu, um dos responsáveis pela morte do jornalista Tim Lopes, morto em 2002, esta foragido desde 19 de julho, se foi condenado a 23 anos e seis meses de prisão em regime fechado? Ora, meus doutores da justiça. Se eles estão numa boa, porque terei que ser a palmatória do mundo? Aceitarei, de bom grado a cadeia a que tiver direito, pelo meu crime, quando todos esses assassinos forem capturados e passarem a ver o sol nascer quadrado. Quando as autoridades competentes mostrarem realmente a sua idoneidade, o bom senso, o fim do protecionismo, a sua capacidade e poder. Acreditarei em situações mais prósperas, quando esses brilhantes que ai estão, em nome da Lei, passarem a dar contas, no preto e no branco, com transparência, a essa sociedade sofrida e pisoteada, a essa massa de infelizes cansada de tantas barbáries e atrocidades. Prendam-me, pois, quando todos os aqui citados estiverem engaiolados. Ate que isso ocorra, vou matar sim, vou matar e quero a benignidade das regalias do Sr. Thales, os privilégios do Sr. Elizeu, do Sr. Omar e de tantas outras figuraças que estão por ai. Como eles, tenho urgência em continuar a comer as tantas e quantas mulheres listadas na minha agenda. Quero passear solto, ir aos shoppings, desfrutar da vida e gozar da justiça. O que? Não posso? Uma vergonha? Onde esta a vergonha? Reputo vergonha, ou falta dela, bater uma punheta para a Grazielli Massafera. Nessa historia toda, meus prezados doutores da Lei, tenho pena dos pais do rapaz morto. Sinto pena de dona Norma, como sinto pena da esposa, da mãe e do pai de Tim Lopes. Como os nobres acham que deve estar à cabeça de cada uma dessas pessoas? Fosse comigo, meus doutores da lei, acontecesse com um dos meus filhos, podem estar certos, não esperaria pela justiça. No fundo, a verdade é uma só. Justiça não existe. Justiça, nesse país de salafrários, se traduz por armações, sacanagens, CPIs fajutas, pizzas, pizzas e mais pizzas. Fosse na minha família, esse promotorzinho, como qualquer outro que atentasse contra a vida de um ente meu, querido, estaria sendo, como bem disse Datena, no Fala Brasil, fritado vivo. Eu arriscaria a minha pele de leopardo e iria mais longe. Arrancaria as unhas do filho da mãe com alicate. Os olhos, eu os furaria a soco inglês, sem mencionar um ferro em brasa atochado no meio do rabo. Faria isso com ele, como repetiria a dose com o Zeu, com o Omar, enfim... Por certo, essas criaturas peçonhentas que andam soltas pelas ruas das nossas cidades, espalhando o medo, ainsegurança, o terror, pensariam, não uma, mas mil vezes, antes de se transformarem em super-heróis. Sopesariam os atos no instante exato de meterem os pés pelas mãos e mostrarem, para as namoradinhas, quem é que manda, ou quem é o tal. Refletiriam antes de darem carteiradas, de ligarem para o papai, ou de abusarem do poder de seus cargos. Pensariam, esses canalhas, mil vezes, repito, antes de saírem disparando tiros a torto e a direito. Se fosse eu, o pai do Tiago, o doutor Thales, ou outro que fizesse o que ele fez, a esta altura do campeonato, se pegaria rezando para achar, sem mais perda de tempo, o caminho que o levasse imediatamente a Hades. No mesmo norte, o tal de Elizeu, e o Omar. Eles sem exceção se fechariam em seus quartos, sumiriam embaixo da cama, se trancariam em suas celas, ou no raio que os parta. Procurariam fazer uma introspecção a partir do minuto em que vestiram a armadura da impunidade e tomaram a iniciativa de cometer os crimes hediondos que chocaram e abalaram a opinião publica do país inteiro. Sou do tempo antigo, meus nobres doutores da lei. Mais precisamente daquele tempo em que um ser humano, ao ser morto, sucumbia nas unhas de um membro da família que imediatamente entrava em cena e se vingava fazendo justiça com as próprias mãos. Lembram da Lei de talião? Nada a ver, por favor, não confundam alhos com bugalhos. Nada relacionado, direta ou indiretamente, com o talião de cheque? (*) VV-PC Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007. *Aparecido Raimundo de Souza é escritor Publicação: www.paralerepensar.com.br - 17 /09/2007
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