Campanha para o Voto Responsável

Por : Salvatore D' Onofrio

O poeta Vinicius de Moraes disse sofrer do “ridículo desejo de ser útil”. Confesso que eu também sofro do mesmo sentimento. Ser útil não é dar esmola, mas estimular nosso próximo a tomar consciência de sua condição de ser humano que pensa com sua própria cabeça e reflete sobre a realidade que o circunda, sem se deixar explorar por ídolos religiosos ou líderes políticos. A tese recorrente do pensador italiano Norberto Bobbio é que nenhum regime democrático sobrevive, se o governo alimentar a corrupção e a impunidade. Sem ética na política, nosso país corre o risco de voltar a um regime ditatorial disfarçado de democracia (o voto de cabresto substitui forças armadas), pois o abuso do poder e a injustiça social induzem à revolta e violência.

 É preciso tomar consciência de que o dinheiro de nossos impostos deve ser aplicado apenas em função da educação, saúde, transporte coletivo, segurança, planejamento familiar, prevenindo os males em lugar de remediar. Chega de trabalharmos por mais de quatro meses por ano gratuitamente para sustentar gente que faz da atividade política uma profissão, visando se enriquecer às custas do erário público. Para que tantos senadores, deputados, vereadores, ministérios, secretarias, cargos de confianças, viagens ao exterior, marketing de empresas estatais, privilégios e mordomias sem número? Com tanto dinheiro desperdiçado poderia se acabar com a miséria no Brasil em poucos anos, com muito mais sucesso do que a eleitoreira bolsa família, que estimula a vagabundagem.

Talvez nosso poeta, ao considerar “ridículo” o desejo de ajudar, concordasse com o filósofo Renan que afirmou: “a única coisa que nos dá a idéia do infinito é a imbecilidade humana” . O homem apanha e não aprende: repete sempre os mesmos erros. Todo o mundo fala mal dos políticos profissionais, mas continua votando neles. Se o povo não votasse sempre nos mesmos, acabariam os currais eleitorais dos Sarneys no Maranhão, ACMs na Bahia, Malufs em São Paulo, entre tantos outros, que há decênios se enriquecem com o dinheiro de nossos impostos.

E a culpa não é do homem, mas do sistema vigente. Se um médico, um advogado ou um docente deixar sua profissão para se dedicar a um cargo público eletivo ou executivo, ele deve viver de política. E para se eleger ou se manter no cargo é obrigado a pedir e retribuir favores. E alguém é tão ingênuo ao ponto de acreditar que o patrocinador de uma campanha eleitoral gaste milhões de graça, pela cara bonita do candidato a deputado, prefeito ou presidente da república? Eis a origem da corrupção! Para corrigir esta e outras abomináveis falhas institucionais precisaria fazer uma profunda reforma política que, evidentemente, não interessa aos que estão no poder. Não esqueçamos que a Constituição de 1988 foi feita por Senadores e Deputados, cuja maior preocupação foi defender os privilégios corporativos. Minha tese é que caberia à sociedade civil alterar princípios constitucionais sem o concurso dos governantes.

Enquanto isso não acontecer, a única arma que os cidadãos possuem é o voto consciente. Bastaria não votar nos políticos que já estão no poder. A aprovação da lei da “ficha limpa” foi um avanço, mas insuficiente, simplesmente porque é difícil encontrar alguém impoluto na atual conjuntura política. Quem não é corrupto, é conivente ou omisso, pois ninguém rouba sozinho! Para mim, votar num político profissional se tornou um drama de consciência: como justificar perante filhos e netos minha colaboração, através do voto, com tanta roubalheira que prejudica o desenvolvimento humano? Prefiro votar nulo ou em branco ao me sentir cúmplice. Se alguma ONG que cuida de transparência ou cidadania iniciasse uma campanha para o voto de responsabilidade, seria a melhor coisa que poderia acontecer no circo de horrores armado para as próximas eleições.

Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br

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