CARLOS TRABACH & “O GALO ALCAGUETE”

Por : Pettersen Filho

                      Naquele dia de semana, absolutamente comum, tudo demonstrava ser apenas mais uma repetitiva e monótona rotina de trabalho na DHPP – Delegacia de Homicídios e de Proteção à Pessoa de Vitória/ES, localizada no privilegiado Bairro abastardo do Barro Vermelho, em plena Zona Residencial da Capital Capixaba.

                      As inúmeras Equipes, que cumpriam as incumbências finais do recém findo Plantão Noturno, recolhendo cadáveres, ainda frescos, da noite passada brasileira, e haviam, ainda há pouco, acabado de encetar diversas diligencias para a devida prisão de alguns suspeitos, ainda deixavam o Prédio, após aplumarem alguns dos Conduzidos , e as testemunhas dos fatos, ao Cartório, no Segundo Andar do Prédio.

                      Um dos mais voluntariosos policiais da Homicídios, Carlos Trabach , Investigador de Polícia Civil, após, já, alguns anos de lida com o trabalho policial, sempre habituado a realizar as primeiras investigações em locais de “ encontro de cadáver ”, muito conhecido pelos colegas devido aos seus sempre minuciosos relatórios e croquis , já arrumava seus apetrechos para o merecido descanso diurno.

                      Eis que, de súbito, de um dos Cartórios Criminais do Prédio, do Segundo Pavimento, um dos Conduzidos, até então mero Suspeito de ser o Autor de um dos homicídios daquela fatídica noite, enquanto era momentaneamente desalgemado, para que assinasse os Termos de Declaração que prestara, vendo, contudo, aberta uma das janelas da sala, que dava para a rua, lá embaixo, não titubeou: Lançou-se em frenético vôo solo e suicida.

                      Mas, como diz o ditado popular: “Deus tem olhos para as crianças, para os bêbados e para os loucos” , não é que o Danado logrou êxito em alcançar, ileso, a rua, e partiu em soberba disparada para o primeiro destino fortuito que o seu nariz apontasse.

                      Eis que, de imediato, no seu encalço, logo saíram todos os que ali estavam, ainda chegando ou saindo da Delegacia, diante daquela cena atípica.

                      O Meliante, ao passar por mim, que vinha distraído, em sentido contrário, sem me aperceber da gravidade dos fatos, ato continuo, como é natural nas pessoas desesperadas, ou em rota de fuga, não se importou com os tiros de advertência disparados em sua função, e, evadiu-se em carreira, desenfreado por vários quarteirões, sempre, implacavelmente, perseguido pelos diligentes policiais: Trabach, sempre dedicado em suas atribuições, dentre eles.

                      O Marginal atravessou inadvertidamente a movimentada Reta da Penha, em uma ginga, tanto frenética quanto louca, driblando, como um “Rei Pelé à bola ”, os carros em transito, logo, enfronhando-se por detrás do muro do Prédio da Rádio Espírito Santo, em rápido sobressalto, no sombrio matagal ali existente.

                      Foram vários minutos, horas, de busca minuciosa e detalhado vasculhamento do local, entretanto, sem que os perseguidores nada encontrassem.

                      Vários dos policiais, menos crédulos com o sucesso da improvisada Operação, já haviam desistido das buscas, dando definitivamente o Elemento por foragido. Menos o Trabach , como lhe é traço peculiar, um obstinado cumpridor do dever: Ele continuou, insistente, a busca, até que, por fim, lhe esvaísse a crença.

                      Logo Ele, quem não desiste quase nunca.

                      Num ultimo e derradeiro esforço, porem, sobrepôs-se encima do muro, que limitava a rua, já quase sem esperanças...

                      Foi, entretanto, quando cansado da inútil saga, já preparando-se para o que, no seu próprio caso, entenderia sobre si mesmo, perfecçionista que o é, como uma austera derrota pessoal, pôde reparar, mais atentamente, no fundo do terreno, que havia um rústico galinheiro, onde, também, pôde perceber que havia um Irrequieto Galo , fazendo breves e acuados movimentos com o pescoço ( “co-có-có, co-có-có” ), parecendo querer indicar ao Protagonista uma direção qualquer: Pronto ! Localizara Ele, quase por acaso, com a inestimável ajuda do “ Galináceo Cacarejante”, o Larápio Evasor .

                      Estava ali, definitivamente, indicava-lhe a experiência profissional, o tal Bandido, entocado por entre as galinhas, diante dos olhos severos, e ciumentos, do “ Galo Carijó ”...

                      No outro dia, subseqüente, se via na manchete do jornal local, sensacional charge alusiva ao caso, que vazara para a Imprensa, a qual exibia o desenho alegórico do tal “ Galo Alcagüete ” projetando levemente, em movimentos repetidos, o pescoço na direção do Bandido ...

                                           

Se é verdade eu não sei, mas dizem que, até o Raio do Galo foi parar no Relatório do Policial. Trabach , quem, rigoroso e sério como é, não poderia deduzir para si próprio todas as glorias da recaptura do Meliante . Contam, até, que as supostas ameaças do Bandido ao Galináceo Delator foram tomadas a termos: “Quando eu sair da Cadeia, “Seu Galo Dedo-duro”, cê vai é virar canja. Eu juro !” Teria praguejado o Bandido.

Voltar