FILARMINO: “ ...O PRÓXIMO ”

Por : Pettersen Filho

Filarmino é um desses brasileiros, tipo mediano ou comum.

Aos seus cerca de quarenta e cinco anos de vida, bem vividos, trás consigo os calos que a sua parca existência de homem simples lhe causou.

De hábitos comuns, tais como, tomar café com leite de manhã, e um bom bife mal passado, no almoço, quando possível, às vezes acompanhado de batata frita e arroz com feijão, sua vida não tem muita graça. A não ser quando exagera na dose da “ branquinha ” no boteco do bairro, junto de uma meia dúzia de amigos, no domingo de futebol.

Filarmino , profissional em malabarismo financeiro, habita por entre os freqüentadores assíduos da classe média brasileira, e a remediada, quando, entre um emprego e outro, vale-se do seguro-desemprego, proporcionado pelo Estado brasileiro.

Esperanças, que é bom, não carrega, mais, muitas consigo, no alto da sua meia idade.

Também pudera: Cresceu na obscuridade dos anos de chumbo, entre as décadas de sessenta e setenta, oportunidade em que formou o seu perfil psicológico, longe das brincadeiras de criança de “pique - esconde” e de “cabra-cega”, ouvindo as “ marchinhas ” propaladas pelos generais da Ditadura, com “ vinhetas ” tão acomodadas, como as das Bandeiras do Brasil, “ Ordem e Progresso ”, ou quanto a do Estado do Espírito Santo, “ Trabalha e Confia

Creio mesmo, que, ainda reverbera em sua mente as modinhas dos anos setenta, “ Brasil: Ame-o ou Deixe-o ”, quando milhares de pessoas, que resistiam ao Regime, eram sumariamente mortas ou extraditadas, ou aquela outra, a do “ Faça o amor e não faça a guerra ”, a qual desincentivava os jovens a lutar pela Democracia, e pelo País que acreditavam, nas matas tórridas do Araguaia.

Aliás, muitas foram as vezes em que Filarmino , aos Sete de Setembro, era visto com “ bandeirinha verde-amarela ” na mão, vendo as tropas passarem.

Concurso do “ Operário Padrão ”, tão popular no Pais Delfiniano do “Milagre Brasileiro” daqueles dias, esse, então, Filarmino não perdia um...

E assim foram se passando os anos, e as esperanças do Filarmino , também: “ Pra frente Brasil !!! ”

Quando, uma vez ou outra, a mulher do Filarmino atrasava no serviço, ou chegava tarde, amarrotada, do serão, Filarmino achava tudo normal. Era a sua cota de sacrifício pelo progresso da Nação.

Por esta e outras, contam que, certo dia, ao subir a Avenida Getúlio Vargas e aproximar-se do Palácio do Catete, e, ao ver uma longa fila, a qual adentrava um enorme prédio, desses envidraçados e com degraus de mármore, em que tanto gostam de se aconchegar os burocratas do Serviço Público, Filarmino , sem saber ao certo o porquê da tal fila, não titubeou: Enrabou logo a fila, quarteirões abaixo.

E as horas avançaram, a passos lentos, por debaixo de um sol a pino, de por volta do meio-dia.

Naquele momento de ansiedade, nem a fome pelo costumeiro bife, lhe aplacava o desejo de chegar ao guichê de atendimento. Era este o seu costume.

A multidão que o acompanhava, morbidamente, naquela espécie de procissão cívica, como, aliás, é o costume nacional, mormurava mansamente nomes e números, seus endereços e cotidianos, enquanto enveredavam pela fila as suas vidas mornas de bons brasileiros, pacientes e pacatos.

Filarmino , dentre eles. Filarminos e mais filarminos, a celebrar a grande verdade nacional.

Sonhos, aliás, como já dissera antes, Filarmino não os tinha, não. Haviam sido aplacados por anos e anos de domingos na Igreja e ao Deus dará. Era o dinheiro do feijão, a conta da luz para pagar, a prestação da casa-própria, o plano de saúde, os centavos da fé na loteria, a mensalidade do colégio da filha, a xepa da feira...

... e tome mais fila...

Foi, assim, lá pelas 17:00 horas da tarde, diante da súbita garoa que caia, que Filarmino arreparou ao longo da fila um certo alvoroço, pela frente, no qual as pessoas, filarminas como ele, se acotovelavam, na tentativa da aquisição de uma senha, então, ao fim do expediente distribuída, para o atendimento do dia seguinte: Mais do que depressa, Filarmino , que não é bobo nem nada, conseguiu para si uma das últimas.

E a noite passou, veio a névoa da madrugada, e tome Filarmino na fila, na calçada, por debaixo, ou não, da marquise.

Foi, então, lá pelas 10:00 horas da manhã, somente, do dia seguinte, quando reabriu a repartição, que finalmente Filarmino alçou adentrar no salão do prédio, já exausto e faminto, quando, enfim, diante do Atendista , ainda tomado de certo sono, diante da rotina repetitiva do atendimento no guichê, ordenou em tom severo, sem ao menos por um minuto fitar-lhe os olhos, que se aproximasse o Filarmino : “ O Próximo... ”

Filarmino , sem entender muito se era com ele, ou não, aproximou-se com ar mendigo, de quem dormira e passara o dia anterior na fila, e, em tom hesitante, balbuciou: ... “ Moço ...”

No que foi bruscamente interrompido pelo tom imperativo do Atendista : “Sua Identidade e o seu CPF ”

Sem muito esboçar entendimento, ainda assim, repetiu candidamente Filarmino : “... mas, Moço ...”

“ Não me venha com essa estória de Moço, não ”. Respondeu em tom ainda mais grave o Atendista , concluindo: “Não sou macaco gordo para ficar quebrando o galho dos outros, não. Isso aqui é serviço sério: Identidade e CPF, vamos ”

No que, embaraçado, se manteve Filarmino : “ Mas precisa disso tudo, Moço ? – Perguntou timidamente. Finalizando: “ Eu somente queria saber para onde vai essa fila ”.

Foi quando se ouviu de dentro do balcão, enquanto segue a fila, nova determinação: “ ...por favor, o próximo

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