NÃO CELEBRO NATAL

Por : PASCHOAL MOTTA

Venho dando conta, a cada final de ano, de incoerências quando começam propagandas com gancho no Natal de Jesus Cristo. E, a cada vez, mais essa, digamos, enxurrada de incentivos para compra de presentes, comilança, bebedeira, festança, desavenças, reconciliações etc. e tal. Enfim, consumir de um tudo por distraídos da tradição do 25 do Dezembro. E pipocam,  em rádios, tevês, revistas, jornais, placas, vitrines, nisso e naquilo, para Você ter de dar e receber o possível e o impossível, porque vem aí o Natal e seu indefectível Papel Noel...   Enfim, Natal de quem tão importante para ser assim comemorado?

 

Raríssimas peças publicitárias e promoções, sem e com Papai Noel, a respeito do Natal, citam o nome do aniversariante a festejar; não, ou mal sabem da tradição de cunho religioso e social, sobre o nascido numa modesta comunidade de um pequeno país do Oriente Médio; de mãe e pai humildes, um sem beira nem eira, falando uma língua difícil. Ainda assim, as mensagens dele repercutem até nossos dias Planeta afora.  Um famosíssimo personagem, sim, mas considerado, quase sempre obtusamente, por seus ditos representantes.

Jesus Cristo ainda atende por Messias, Nazareno, Salvador, Redentor, Cordeiro de Deus, Rei dos Judeus entre outros, rendem ganhames de milhões e milhões de dinheiros no balcão do egoísmo e da ganância desmedida. Usam e abusam do seu nome em vão. E como abusam!

E ele vem sendo crucificado, tempos afora, pelo desvario mesmo dos que se elegem seus representantes. Tenho, sim, simpatia com suas Boas Novas, sempre oportunas lições de melhor viver e conviver. JC, um homem raro, humanista iluminado, só pode; suponho teria provado do vinho de Siddhartha Gautama, na taça da paz, do amor, do perdão nas suas pregações.

Me alentam lembranças do preparo do Presépio para o Natal de Jesus, em São Pedro dos Ferros, desde a busca de areia branca em barrancos e limo úmidos em cortes de pedra da Estrada de Ferro; da feitura de pequenas casinhas de cartolina, de uma gruta e o mais por mãos dos de casa. Não me recordo donde saía o pó de malacacheta para colar com grude de farinha de trigo sobre papel grosso amarrotado de saco de cimento para imaginar uma gruta onde a manjedoura com o Menino, sua mãe, pai, Reis Magos, e bichos. Ali, deitadinho numa manjedourinha, rodeadinho pela santa mãe Maria, e o santo pai José, mais um boizinho, um burrinho, estáticos, de vigia e guarda, tudo em gesso, ou barro modelados e pintados por nós mesmos. Encantavam até o Dia de Reis, em janeiro. Com bafo invisível, os animais ao redor esquentavam o frio das perninhas e bracinhos de fora do recém-nascido num cochinho forrado de capim. Da gruta até a última casinha da única praça de um lugarejo também inventado, animais e pessoas de barro davam vida ao cenário mítico num pavimento de areia branca. Tudo guarnecido por uma cinta verde de arroz brotando em latas vazias de sardinha. Exigia perícia o recortar uma estrela de longa cauda em papel prateado, fixada sobre a armação da gruta, recurvada, do infinito para a entrada de onde o Menino no tosco berço... Ela atrairia os reis magos...

De debaixo da manjedoura na beira do Presépio, uma fita de cetim de largura média, vermelha, azul, ou branca, para beijar, a distância, o recém-nascido.  Na ponta daquela fita, um pequeno pires recebia os tostões de espórtula, ajutório para aquisição de novos apetrechos para o próximo Presépio.    

A montagem desse cenário num tablado enfeitava a modesta sala de visitas. Podia ser com tábuas, ou uma velha porta, livre de suas dobradiças, sobre dois cavaletes tomados de empréstimo. Tudo no improviso, no participativo, no comunitário, no alegre. Permanece o cheirinho úmido dos verdes do limo, do arroz brotando nas latas de sardinha. Minúscula candeia a óleo de mamona velava o ambiente...

Pela ave-maria, escurecendo, a monótona e infindável litania do terço puxado, por minha mãe, de joelhos todos, destoava do menino escalando para a pré-adolescência, ávido de ações novidadeiras. Naquela espichada hora de relógio, ele preferia escapulir para debaixo do aconchego da armação improvisada e sonhar meninices, detrás de uma cortina de chita, de cima a baixo, para ocultar os cavaletes. A tinta dos desenhos coloridos e espalhafatosos cheirava a pano novo.

Os doces em calda de limão, de figo, a rabanada amarela de ovo... O queijo da roça... O coco chamuscado no fogão, quebrar o dito a martelo; retirar a polpa branca; raspar os pedaços dela, a faca, tirando a película amarronzada; passar no ralador e preparar doces de e com coco; o arroz-doce, canela moída por cima; o amendoim torrado e rapadura para o pé-de-moleque; o cheiro do limão ou da cidra descascados... e as gostosuras fartavam os dias do dezembro, entoando sensações...

Meia-noite, Missa do Galo somente para os adultos.

Deitavam cedo os meninos para logo chegar a manhã do 25, pulava da cama, o mais cedo, para conferir o presente pedido a Papai Noel e ao Menino Jesus sobre um pé de sapato atrás da porta da sala.

Lá fora pelas ruas, buzinas estridentes, apitos misturados, espoletas estalam em revólver de alumínio, motivados pelo faroeste no cinema; carrinhos de corda, velocípedes em disparada, poucos esses, porém; bolas de borracha chutadas a torto e a direito; algazarra... Meninas com bonecas cuidavam de inventar a casa e o filho do futuro. E, pés descalços, as crianças mais pobres que nós, babando com tudo aquilo e sem compreender porque Papai Noel se esquecia delas todo ano...

Agora, iremos de pernil, churrasco, carne de boi, de cabrito, de porco, peru, frango, isso e aquilo, regados, sem moderação, a cachaça, vinho, uísque, cerveja, refrigerante, o escambau. Iremos ainda nos empanturrar com pudins e doces outros por cima de tudo; outras e uns e com embaladores para felicidade imediata no embalo da festança...  E a maioria dos menos aquinhoados se contentará com cachaça e um franguinho. O negócio é comer e beber; beber e comer sem mãos a medir... E sacrificando animais para comemorar um nascimento...

E mais nos engabelaremos com mensagens de um Feliz Natal e Próspero Ano Novo, com iluminações feéricas sem referência explícita da razão de ser...

Vamos que vamos, dançando um carnaval de enganos e mentiras na corda bamba da insensibilidade, consumindo e consumidos, distanciados um do outro, e nem aí; mas alegres pra dedéu...  

(Paschoal Motta, escritor, jornalista, professor)

 

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