O TESTE : APENAS UM CONTO DE NATAL...

Por : Pettersen Filho

Meu Pai, embora de origem rude, nascera no interior do Estado do Rio de Janeiro, quem se fizera na vida, de certa forma, um homem polido e articulado.

Tão somente possuidor do Curso Primário, ainda que mal concluído, já, aos 12 anos, como Arrimo de Família, vítima de uma tragédia pessoal em que o seu Pai fuzilara um Visitante Noturno no Leito, adultero e mortal, de sua Mãe, ao ver a Família desfeita, migrara para a Capital do Estado, tendo se empregado em uma Sapataria , e, entre uma Pensão e outra, passando, menos por patriotismo que por Estado Famélico, pelo Serviço Militar, já bem cuidava da sua própria existência, como a vida áspera tanto lhe ensinou.

 

 

Casado originalmente com a minha Mãe, quem retirara da Casa dos Sogros, sendo ela uma Mulher, daquelas, Tipo Amélia , concebida tetricamente para o Tumulo de um só Casamento, contraíra com meu Pai, aos pares alternados de um filho homem e outro mulher, por vez, seis filhos, dos quais eu fora o penúltimo.

 

Seus Ditados Preferidos, possuía-os às pencas, ocultavam, à medida que eram proferidos, o seu modus de vida: “ Meu Filho. Agente tem um Olho para ver muito, um Ouvido para ouvir muito e uma Boca para falar pouco. ”, sentenciava de quando em vez.

Isso, ora penso Eu, ajudava-o a esconder da minha Mãe as suas mutretas, tais como os casos extraconjugais, quando flagrado.

Certa feita, na Infância bem vivida em Belo Horizonte , quando descendo a Rua da Bahia, o vi de carro com a sua amante, imaginando, no repente dos meus 14 anos, ser, com Ele, no carro, a minha Mãe, quando, chegando no seu encalço, já abraçando-os pela janela do carro, a Meliante, ironicamente, retribuindo o carinho, proferiu: “ Oi, meu Filho... ”: Isso feriu-me mortalmente.

Quando, em Casa, ao relatar para a minha Mãe, a Legítima , o ocorrido, meu Pai logo sacou, na confidência do momento, um dos seus Ditados Diletos: “Meu Filho. Faça o que Eu mando e não faça o que Eu faço” , entre um puxão de orelhas e outro, longe dos olhos desatentos da minha Mãe.

Na Loja, Ele tornou-se um Pequeno Empresário no ramo de calçados, vendedor hábil e sagaz, virava, alternadamente, para um dos filhos, e dizia: “ Olha, meu Filho. Você é o meu Preferido. Tem potencial e vai ter tudo Comigo, mas, fica de olho no seu Irmão, que, Eu acho, Ele está nos roubando... ”

Mais tarde, se soube, repetia a mesma manobra com o outro Irmão. E assim, maniqueistamente, ia nos levando, a todos.

Quando contratava uma Funcionária, gostava de menininhas novas, sempre aplicava um Teste , o qual se consistia em avaliar o grau de honestidade da Vítima.

Foi no Natal de 1996, se não me falha a memória, que passou um dos mais impressionantes episódios, dos que já testemunhara.

Naquele ano, devido ao acréscimo de movimento, próprio das Festas de Fim de Ano, meu Pai contratou uma Mocinha: Dessas, displicente, de primeiro emprego, na imaturidade dos seus prováveis quinze anos de idade, e, colocou-a no Caixa da Loja, segundo Ele, a “ Alma da Empresa ”, de quem dependia toda a razão de ser do Trabalho, pois, ali estava depositada a justificativa do Empreendimento.

Dessa forma, foi assim, dentre as suas manias e estratagemas, somente por Ele concebidos, para aferir a honestidade dos seus subordinados, deixava, logo no primeiro dia, uma nota de cinquenta ou cem reais, passar a mais, na Féria do Fim do Dia, por uma venda propositadamente não registrada, ou, então, deixava cair, dentro do Balcão em que ficava a Registradora, como um Teste , para que a Moça, eventualmente, recolhesse, embolsasse ou devolvesse , fosse o caso, o dinheiro: Isso era, efetivamente, o tal Teste .

Com essa última Moça, em especial, Ele determinou: “Olha, Moça: Os sapatos vêm enrolados em papel de seda, dentro das caixas... Ao vender o produto, Eu quero que Você retire o papel de seda e separe as caixas, para posterior reaproveitamento, entendeu ?” , tendo a resposta afirmativa.

... E assim o ensinara, em alguns, e repetidos, pronunciamentos, acompanhando severamente tudo, com o que a Moça, aos poucos, se familiarizou, passando assim a proceder.

Foi quando Ele, o meu Pai, acrescentou, naquela tumultuada Véspera de Natal, com o Comércio borbulhando, uma das suas tais notas de cem reais , entre a seda e a caixa vazia, aplicando por essa forma o tal Teste , mandando, em seguida, como também era rotina, nos finais de expediente, que a Moça jogasse as caixas, em excesso ou defeituosas, no Lixo, lá na Calçada, do lado de fora da Loja, a fim de que fossem recolhidas. O que a Moça realizou com presteza, própria do simplório trabalho.

Contudo, naquele auspicioso e inesquecível 24 de dezembro de 1996 , tendo a Loja funcionado até cerca das 23:00 horas, meu Pai determinou que a Moça, então, fechasse o Caixa, oportunidade em que constatou que os seus famosos cem reais houvera sumido. Das duas, uma: Ou a Moça embolsara o dinheiro, ou ele, misteriosamente, havia, de forma mágica, sumido. O que era muito improvável.

Foi quando, uma vez pressionada a informar o destino do dinheiro, a Moça, acuada, revelou...: “ Seu Pettersen. Eu não sou desonesta, não. Devido ao movimento intenso do dia, as últimas dez ou doze caixas de sapato com seda Eu não verifiquei. Como havia muitas, eu joguei direto fora, lá na Calçada.... ”

Momento em que, ouvimos, todos na Loja, incredulamente, o som do Caminhão de Lixo levando a última remessa de caixas embora.

Meu Pai, mais do que esguio e ligeiro, aos 15 minutos para a Meia-noite, diante de todos os que já se dirigiam para suas casas, na Rua, atônitos, foi visto correndo atrás do Caminhão, daqueles, ainda de carroceria repleta, fétida e aberta, Gritando: “ Para, para. O meu dinheiro.... ”

Mais à frente, no meio da Rua, foi visto, para zombaria e felicidade geral dos Menos-mesquinhos, revolvendo o Lixo, a procura dos tais cem reais, diante do susto geral dos Lixeiros e Transeuntes, que não entenderam nada...:

Um Bom Natal para todos....

 

 OBS: Crônica antiga, baseada em fatos reais, reeditada em cada Natal em homenagem ao meu Pai (Que Deus o tenha!!): Feliz Natal a todos!!!

ANTUÉRPIO PETTERSEN FILHO, É ADVOGADO MILITANTE E ASSESSOR JURÍDICO DA ABDIC – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DEFESA DO INDIVÍDUO E DA CIDADANIA, QUE ORA ESCREVE NA QUALIDADE DE EDITOR DO PERIÓDICO ELETRÔNICO “ JORNAL GRITO CIDADÃO”, SENDO A ATUAL CRÔNICA SUA MERA OPINIÃO PESSOAL, NÃO SIGNIFICANDO NECESSARIAMENTE A POSIÇÃO DA ASSOCIAÇÃO, NEM DO ADVOGADO.