DOM DÉCIO ZANDONADE

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                                             Por :  João Baptista Herkenhoff

 

          Uma das características das pessoas idosas é lembrar-se do que já foi. De minha parte cultivo o saudosismo com alegria. A renúncia de Dom Décio Zandonade, Bispo de Colatina, remete-me ao passado. Na carreira da magistratura os juízes passam por várias comarcas do interior, antes de chegar à capital. Normalmente, as andanças começam em cidades de difícil acesso até que chegue a oportunidade de melhor localização geográfica. Dentre as paragens onde aportei minha pena e minha alma de juiz, três me despertam especialíssimas lembranças: Cachoeiro de Itapemirim, São José do Calçado e Colatina.

 

 

          Cachoeiro é minha cidade natal. Que alegria ser juiz naquela cidade onde nasci, vivi minha infância, adolescência e parte da mocidade. O menino Joãozinho voltava à Princesa do Sul como Doutor João, meritíssimo, essas coisas de protocolo. Mas que sensação feliz foi constatar que o menino Joãozinho não tinha morrido porque, na alma do magistrado, ainda vivia uma criança, capaz de condoer-se com a dor humana. Aquele adolescente, que visitava os presos porque aprendeu com sua Mãe que no rosto dos sofredores estava impresso o selo de Jesus Cristo, tinha agora, na condição de Juiz, a oportunidade de reconhecer a dignidade humana do preso tudo fazendo para possibilitar seu retorno à vida social.

 

          São José do Calçado é uma comarca onde o juiz é herdeiro de um patrimônio moral inestimável, construído, através de decênios, pelos titulares da toga naquele pedaço de chão capixaba. O colono de pés descalços, a mãe com o filho no colo, o operário, o preso, os que sofrem, os que querem alívio para suas dores, os que têm fome e sede de Justiça – todos batem, com respeito sagrado, às portas do Fórum ou da residência do Juiz, confiando na sua ação, na sua autoridade, na sua ciência, na sua imparcialidade e firmeza moral. E deve o Juiz distribuir Justiça, bondade, orientação, confiança, fé, perdão, concórdia, amor.

 

Na linha de Homero Mafra, um dos mais queridos juízes da história calçadense, pude entender que a ação do magistrado não se esgota no Fórum. Ele deve contribuir para o desenvolvimento da comunidade. Na rota de Pedro Borges de Rezende, procurei humanizar o Direito, decidir, às vezes, contra a letra da lei, buscando sua finalidade, que é a Justiça.

 

          Em Colatina, além do ofício judicial, minha mulher e eu fomos professores do Colégio Estadual e das duas faculdades que então estavam sendo implantadas. Lecionei na de Direito (como professor fundador), enquanto Therezinha lecionou na de Filosofia.

 

          Colaboramos com trabalhos da Igreja quando era pároco de Colatina aquele que veio a ser depois o Cônego Maurício Mattos Pereira, irmão do colega magistrado Jairo de Mattos Pereira.

 

          A ação pastoral de Dom Décio Zandonade, sempre comprometido com o papel social do Bispo na defesa da Justiça, lembra-me também dois Bispos a cujo lado trabalhei como membro da Comissão de Justiça e Paz: Dom João Baptista da Motta e Albuquerque e Dom Luiz Gonzaga Fernandes.

 

          Desejo felicidades a D. Wladimir Dias que vai substituir D. Décio, nos seus difíceis encargos.

 

        

  João Baptista Herkenhoff é juiz de Direito aposentado, professor e escritor.

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CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520

 

(Artigo publicado em A Gazeta, edição de 21/05/2014. O Jornalista Leonel Ximenes, que é muito criativo, deu ao texto um título muito mais sugestivo do que este que eu havia colocado. Título dado pelo Leonel, editor de Opinião do jornal: O bispo e a saudade).