DARWINISMO POLÍTICO E EVOLUÇÃO

Por : Kleber Galvêas

 

Quando meu pai, médico sanitarista recém-formado no Rio de Janeiro, foi nomeado para trabalhar em São Mateus, levou a família do extremo sudoeste do Espírito Santo ( Divisa/ Dores do Rio Preto), para o nordeste do nosso Estado. Isso aconteceu em 1949, e, nessa época, o norte do ES parecia uma prolongação da Bahia, nos usos e costumes. Minha mãe achou tudo muito diferente, mas logo se encantou com a luminosidade local, com o rio Cricaré, o Porto, a camaradagem das pessoas e a diversidade da culinária. Chegou à cidade como professora do Grupo Escolar e logo fez muitas amizades.

 

 

O primeiro convite recebido por meus pais foi para uma festa em casa do líder do PSD local. Eles compareceram. Passados alguns dias novo convite. Agora para uma festa organizada por família ligada à UDN ou PDC (não me lembro). Esses eram partidos políticos fortes na região.

 

Meu pai, muito ocupado no combate às endemias rurais e na direção do Posto de Saúde da cidade, tinha atuação social limitada. Foi minha mãe quem sentiu primeiro a “gafe” que haviam cometido. Conversando, descobriu que não se podiam frequentar festas promovidas por pessoas de partidos diferentes: ser amigos de uns implicava automaticamente a inimizade dos outros. Ouvi-a muitas vezes explicar: “Meu marido veio para cá combater doenças que matam gente do PSD e da UDN. Eu vim dar instrução a crianças cujos pais estão em partidos diferentes. Não vejo por que devo frequentar só uma parte da vida social da cidade. Amizade e convivência são atitudes humanas suprapartidárias”.

 

Quando, em 1954, meu pai foi transferido para dirigir o Centro de Saúde de Vitória e minha mãe, para lecionar no Grupo Escolar Vasco Coutinho, em Vila Velha, deixaram muitos amigos no norte, que sempre visitaram meus pais em Vila Velha, trazendo boas lembranças e o carinho mateense. Muito cedo aprendi, em casa, a valorizar o pensamento divergente, que só se constrói e se fortalece na convivência com os diferentes. Nunca tive problema por razões partidárias. O bom senso prevaleceu entre nós capixabas.

 

Os partidos políticos e seus líderes perderam a identidade e, consequentemente, a autoridade. Na busca pelo poder políticos migram, passando muitas vezes por quase todas as denominações, de uma ponta à outra do espectro político: de infravermelhos tornam-se ultravioleta e vice-versa. Fazem o impensável: coligados em um nível da disputa, em outro são opositores. Sem consistência ideológica, racham na hora em que precisam de maior união.

 

Ao perceber que as siglas e programas partidários nada representam para seus líderes, que fazem coligações visando apenas ao próprio interesse, buscando o conforto ao fugir do debate propiciado pelas disputas eleitorais e buscando a unanimidade, o povo compreendeu ser “exército” sem “generais” e sem “pátria ideológica”. Inapto para embates políticos,  rende-se ao personalismo. Assim elege com expressiva votação indivíduos sem tradição partidária: artistas, religiosos, esportistas e caricatos.

 

Partidos políticos são essenciais para propiciar o aprimoramento  do debate ideológico em qualquer democracia. Para iniciar a recuperação da credibilidade das legendas partidárias, seria interessante que cada partido se apresentasse com candidato próprio no primeiro turno da eleição, sem a confusão das coligações impostas por oportunistas.

Hoje os eleitores têm muito mais informação, independência e senso crítico do que ontem. Só o egoísmo exacerbado, comum às “raposas políticas de sempre”, não deixa que percebam que o meio mudou. O pleito lhes dará uma boa lição.

 

Quem não se adaptar à mudança evolutiva do eleitorado não sobreviverá à seleção natural política propiciada pela democracia, já na próxima eleição.

 

 

Kleber Galvêas, pintor. Tel. (27) 3244 7115 www.galveas.com O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.  junho/2014