UM NOVO MODELO DE SOCIEDADE E DE PODER

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Por : Roberto Romanelli Maia

Cada dia que passa sou mais critico em relação a essa sociedade que idolatra o consumismo e o espetáculo circense de má qualidade. Luto, na medida de minhas parcas forças, contra o biopoder, e o controle que exercem os poderosos, governantes, políticos e todos os que detém de fato o poder, sobre a sociedade, mais propriamente sobre os corpos e as mentes dos cidadãos. Questiono seriamente o poder público, que está perdendo toda a sua legitimidade em face a uma suspeita mútua, que se desenvolveu e cresceu entre os governantes, as autoridades e os demais cidadãos.

 

Essa desconfiança crescente tem derrubado alguns regimes, através de revoluções pacíficas ou armadas; através dessa derrubada que ainda torna possível transformar, renovar e evoluir, para implantar formas melhores de convivência social em um sistema de governo, que atenda melhor a sociedade como um todo e o cidadão em suas necessidades e carências necessárias, para que ele possa ter alguma dignidade pessoal.

Diante desse quadro as democracias se mostram preocupadas; aos olhos  dos poderosos e do sistema, cada cidadão é tratado como um terrorista em potencial, que deve ser controlado como se de fato o fosse.

Dispositivos biométricos em breve serão inseridos na carteira de identidade de cada cidadão, para pretensamente controlarem os criminosos; quem possui uma visão e informações globais sobre eles sabe que essa é apenas uma justificativa legal, para que o sistema possa controlar ainda mais o cidadão.

Hoje, a crise em todos os níveis e e em todos os setores da vida social não é mais temporária; ela se submete e se orienta por um novo capitalismo, que é seu motor interno, incorporando mecanismos de exceção,  adotados pelas autoridades. São impostas aos cidadãos medidas que nunca seriam capazes de serem tomadas em um período normal, nem em uma democracia real e substantiva.

Nas nossas sociedades modernas, algumas seculares, onde certos conceitos teológicos são seguidos e praticados, certos grupos de poder agem de forma muito mais poderosa, dos quais a maioria não está consciente de sua existência.

Para o sistema o capitalismo é, na realidade, uma religião, a mais terrível de todas as religiões, porque não permite a expiação, não importando o crédito que temos com Deus e a palavra que Deus tem para conosco. O mote principal da sociedade atual gira inteiramente em torno do crédito e do dinheiro, e o Banco é o seu templo maior.

Na gestão desse crédito, o sistema financeiro representado pelos Bancos, tomou o lugar da Igreja e dos seus sacerdotes, manipulando a fé e a confiança do homem.

A política passa para segundo plano, porque o poder financeiro substituiu a religião, raptando toda a fé e a esperança de um grande número de cidadãos em todo o mundo. Sendo assim, quando me chamam de pessimista, em um nível pessoal, isto não é verdadeiro, na maioria dos casos, uma vez que certos conceitos de pessimismo e de otimismo não se enquadram nesse raciocínio.

Apenas me nego a não constatar que as condições desesperadoras da sociedade em que vivo não me alimentam muitas esperanças.

Esse não é um pensamento radical, nem uma visão extrema de desespero existencial.

Ser lúcido, ao contrário, deveria ser uma obrigação humana, como resposta  ao apelo que a escuridão da época nos impõe. Perceber, em meio a essa escuridão, algumas luzes que podem nos iluminar, mesmo cientes de  que o presente é, por excelência, o que resta não vivido ainda aberto para  vivermos.  

Para analisar o mundo  em que vivemos na atualidade, temos que colocar o dedo sobre uma imensa mudança, em nossa maneira de representar a existência. Hoje, não temos outra representação da realidade do que a operacional, o efetivo; já se admite conceber uma existência sem sentido.

A preponderância de privilegiar o sistema capitalista, onde o trabalho está voltado para produção, e não em busca de soluções para os problemas que enfrentamos em todo o nosso planeta é uma distorção incentivada pelos que sempre ganham, os poderosos de todos os matizes.

Essa visão escraviza o homem, que não consegue se libertar do trabalho, em um sentido ativo, obrigando-o a executar as atividades e tarefas inerentes à economia e não, aquelas naturais que foram sendo abandonadas com o passar do tempo.

Talvez por ter percebido essa realidade Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, perguntou a si mesmo se a humanidade tem uma tarefa! Sim, será que existe um trabalho do homem como tal, ou o homem nasce sem qualquer tarefa, sendo forçado, logo no inicio de sua vida, a abandonar esse estado?

Dentro desse quadro, o ser humano é um animal que não tem trabalho, não tem tarefa biológica obrigatória, nem  funções precisamente reguladas exigíveis.

Inegável é a constatação de  que só um ser poderoso pode possuir a capacidade de não ser poderoso.

Sim, deveríamos conviver com uma certeza: o homem pode fazer tudo, mas não pode, nem deve, ser obrigado a fazer nada!

A obrigação legal de ser algo ou de representar um papel diante da sociedade, que se traduz na aceitação da lei, é tão somente uma questão de necessidade e não, de possibilidade a ser aceita pelos que sabem ver os sinais de um controle total imposto pelo Sistema que já está presente.

Sendo a lei uma questão de “necessidade”, não de possibilidade, ela gera uma proliferação de normas, regras, etc, que representam perigo para as sociedades ditas democráticas. Em um extremo está o que é proibido e, no outro, o que é obrigatório, estreitando cada vez mais a zona de liberdade humana, enquanto  ela deveria ser expandida.

Na verdade o que acontece é o surgimento de um novo tipo de “campo de concentração”, onde ele substitui a cidade, passando a ser uma parte do território que existe fora, perigosamente, da ordem legal.

Trata-se, de forma clara, na materialização do estado de exceção e de despolitização, que invade e domina tudo, acentuando-se mais e mais, como se tudo estivesse estudado e planejado, pronto para ser executado.

Prova disso está na criação de espaços sob vigilância do CCTV (circuito interno de monitoramento) nas cidades de hoje, quer nos interiores ou exteriores. Novos espaços estão sendo criados, sob controle total do Sistema e de seus governantes. Existe mesmo a exportação do modelo israelense de território ocupado, composto por todas essas barreiras, excluindo os palestinos, que foi transposto para Dubai e outros países árabes, para que sejam criadas ilhas “super-seguras” voltadas para o turismo e para separar os milionários dos demais mortais.

Cabe agora a pergunta: onde iremos parar?

 

Roberto Romanelli Maia

Escritor e Jornalista 

 

 

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