PÃO, CIRCO, FUTEBOL E CARNAVAL...

Por : Roberto Romanelli Maia

O país viveu recentemente  o clima de uma Copa do Mundo de futebol, que acontece em algum país de 4 em 4 anos, com a atenção dos brasileiros voltada para os campos de futebol, arenas, a maioria construída para a realização do evento a custos bilionários, pagos por toda a sociedade brasileira. Nesse período, parte de nosso país entrou em estado de torpor, deixando de lado as agruras do cotidiano, para mergulhar fundo no mundo da fantasia, como queriam as autoridades. 

 


Estes mesmos brasileiros, seguidos por alguns outros, esqueceram nesses dias que o Brasil é o eterno país do futuro e do faz-de-conta.

Preferiram fechar os olhos para o que acontece a um palmo de distância se refugiando atrás do refrão: "Brasileiro é povo sofredor; precisa de lazer e de distração".

Brasileiro não é sofredor,  nunca foi. Ele é vítima de sua ignorância,  da falta de cultura e da incapacidade de pensar, analisar e refletir de forma consciente sobre seus próprios problemas e aqueles que afetam a coletividade.  

Na Roma antiga, os líderes temiam uma possível revolta do seu povo miserável; então criaram a política do Pão e Circo, para divertir a população, reduzindo assim, as ameaças de uma revolta.

Nessa mesma Roma Antiga, quando se pretendia desviar a atenção do povo dos problemas políticos e sociais do momento, davam-lhe pão e circo. Por aqui, oferecem-nos carnaval e futebol.

O "panis et circenses" era a política implementada pelo governo do Império Romano, para garantir um maior controle sobre a população, através do fácil acesso ao pão e à diversão, principalmente os grandes espetáculos nos estádios, como a luta de gladiadores.

Hoje, o futebol e o carnaval no Brasil compõem partes de um "circo" contemporâneo, em que ambos são meios e instrumentos para alienar e manter sob controle o povo.

No caso de nosso país, não parece familiar que assim seja: ou o leitor acredita de fato que o governo se preocupa com a sua saúde, educação, segurança e com o que ele come e bebe, quando todos nós temos conhecimento  que 99% dos produtos alimentares, comestíveis, bebidas, medicamentos, etc, não são fiscalizados, nem controlados, como deveriam, devido aos vultosos interesses induatriais, empresariais e comerciais que dominam a economia brasileira.

Por esse motivo a  questão da qualidade e a presença de componentes e de aditivos químicos danosos à saúde da população, segundo todos os especialistas na matéria, é uma realidade cotidiana estarrecedora,  aceita pelos governos,sob a justificativa que se forem “rigorosos” na aplicação das leis já existentes a economia do país poderá parar.

Você acha que essa quantidade de lixo industrializado que todos nós ingerimos , e bebemos todos os dias ê bomm? Mas se você não se preocupa com a sua saúde e com a sua segurança porque alguém ou o  governo se preocupariam?

O governo "investe" bilhões em futebol e em carnaval, porque ele sabe que é disso que a maioria, pelo menos 2/3 da população brasileira, aceita e  aprova.

De circo como o BBB  e de novelas que fazem do adultério, da poligamia, do sexo irresponsável, das traições, dos assassinatos, das fraudes, etc, que todo ano surgem na televisão, são estes programas a  que a maioria quer assistir.

Será que o  leitor percebe que num país miserável como o nosso nada justifica que exista um programa como o BBB  que faça milhões e milhões de brasileiros pararem, abobalhados na frente da televisão, admirando um amontoado de primatas se divertindo, e vendendo produtos?Tudo isso  acontece numa casa caríssima que no final das contas, sabemos que fomos nós mesmos que pagamos!

Como levar a sério um país que joga na lata do lixo bilhões de reais, para dar circo ao povo, incentivando todos a ir para a rua, embebedarem-se, causando acidentes fatais e aumentando assustadoramente o índice de DSTs?

Ou o leitor ignora que o número de abortos em clínicas ilegais bate recordes alarmantes, pela irresponsabilidade de tantos, sem contar a morte das mulheres vítimas de infecção e  de outras mazelas causadas pelo descaso dessas clínicas públicas e privadas?

Sim, carnaval, futebol, novelas, BBBs, MMA e afins deixaram de ser distrações saudáveis,, para se transformarem, na atualidade, em catástrofes sociais, pois o que importa para as elites, governantes, políticos, empresários, industriais, banqueiros, etc, é fazer a "massa" feliz, através de expedientes que não prejudiquem sua dominação e seu lucro, através de meios lícitos e ilícitos, garantindo a subordinação e a não, sublevação popular.

Para eles não importa se cada vez é maior a corrupção, a violência, as mazelas sociais, com uma educação sem qualidade, a falta de médicos e de medicamentos nas unidades públicas de saúde!

O que o governo realmente queria passar para todos nós é que a seleção brasileira deveria ganhar ,a todo custo ,Copa do Mundo, pois ela encarnaria e personificaria o próprio pais. Deu no que deu: 7X1 e parece que nada vai mudar depois disso?

Vendem-nos a imagem de que somos o país do futebol, do carnaval e das mulatas. Que rimos de tudo, atè mesmo de nossa própria desgraça.

Tanto é verdade essa certeza, que a mídia comemorava os jogos ,dando a eles prioridade, esquecendo o aumento dos homicídios, dos estupros, das brigas, da violência contra a mulher, a infância e o idoso, os assaltos entre muitos outros.

Exagero?

Para o governo de Dilma a máxima era Vencer ou Vencer e o que se constatou foram gastos milionários investidos  em publicidade, pagos pelo BB, Caixa, BNDES, Petrobrás, etc, para que a população identificasse nas chuteiras dos jogadores da seleção Canarinho a alegria do povo. Criou-se um sistema de segurança para que os poucos seres pensantes em nosso país não protestassem contra os bilhões de reais dos contribuintes brasileiros,  gastos para construir estádios de futebol faraônicos que em sua maioria serão sub-empregados. Estádios que com poucas exceções são já elefantes brancos e que, no máximo, poderão servir de museus agora que acabou a Copa.

Dentro desse contexto a conquista do hexa seria o anestésico ideal para aliviar os insucessos amargados nos projetos de construções e reconstruções mal feitas ou inacabadas, o descumprimento das promessas feitas durante a campanha eleitoral, que não foram realizadas, com essas essa autoridades insistindo que tudo está às mil maravilhas, como se fôssemos um bando de zumbis, que não sabem distinguir o que é falso e o que é  verdadeiro.

Neste estado de frenesi falsamente nacionalista não é de se surpreender que passada a Copa, continuem a se repetir os atos de selvageria,  com  membros das torcidas organizadas matando-se nas portas dos estádios, chorando pela vitória ou derrota do seu time, ou doando-se pelo sucesso de sua escola de samba.

Sim, para nossos governantes é bem melhor que as dificuldades e problemas do país sejam esquecidos,  dentro das quatro linhas, de um campo de futebol, para que muitos possam se aproveitar da desatenção popular, para engordar suas já polpudas contas bancárias.

Mas isso é só para começar, pois o pior é que todos deixam a bandalheira fluir e os canalhas e escroques continuam sua faina diária, em busca de mais propinas e comissões pagas com o dinheiro de nossos impostos.

O pretexto, sabemos qual é! Trata-se da cultura de nosso país, como se cultuar os glúteos, o glitter, a cerveja, o sexo irresponsável, com o primeiro que estiver à frente, justifique tudo como sendo de teor cultural.

Claro que o problema maior não está no futebol, no carnaval ou em qualquer outra forma de lazer, mas no fato dos mesmos serem utilizados como meios para alienar o povo e controlar as “massas ignaras e incultas”.

Precisa ser denunciado o aproveitamento da diversão, que é inerente à vida humana, por parte dos governantes e da elite econômica, com o objetivo de manipular a maioria da população brasileira, através da mercantilização midiática/burguesa das formas legítimas de cultura popular.

No dia em que este mesmo povo perceber que ele é muito maior que qualquer governo e que  unido  ele tem mais poder, expressão e força física que um governo, seja ele de direita ou de esquerda, deixará de ser manipulável e de assistir à banda passar "cantando coisas de amor".

 

Roberto Romanelli Maia

Escritor, Jornalista e Poeta

 

 

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