Mito e Hiroshima

Por : Salvatore D' Onofrio

A definição de Fernando Pessoa “O mito é o nada, que é tudo” é simplesmente genial. O poeta português se refere ao mito do herói grego Ulisses que, após a Guerra de Tróia, ao voltar para sua ilha Ítaca, teria chegado à ponta da península ibérica e fundada a cidade de Lisboa (evolução fonética do termo latino “Ulissipona” - a cidade de Ulisses). Este mito é “nada” do ponto de vista da verdade histórica, pois não temos nenhum documento que confirme tal façanha, mas é “tudo” do ponto de vista espiritual ou civilizacional. Segundo a imaginação poética, teria sido a crença na descendência desse ancestral ilustre que moveu o povo lusitano a participar das Grandes Navegações que descobriram novas terras, povos e costumes, no além-mar, deslocando o eixo do Comércio do mar Mediterrâneo para o oceano Atlântico, durante a Renascença européia.

O mito é uma história fantástica, de autoria anônima e coletiva, inventada na tentativa de explicar a origem das coisas ou responder às inquietações existenciais: de onde viemos, existe vida após a morte, o porquê do sofrimento. São esses interrogativos que distinguem o ser humano, dotado de inteligência, do animal, preocupado apenas em satisfazer o instinto da conservação própria (pela comida) e da espécie (pelo sexo), sem ter curiosidade alguma. Ao passo que o homem, desde seu estágio primitivo, tenta encontrar respostas pela arte e pela religião, recorrendo ao mundo da fantasia. Não há tribo indígena que não tenha suas crenças, preces, pinturas, danças rituais, música, canto.

Mas o mito não se encontra apenas em sociedades arcaicas, pois fomenta também o nascimento e a manutenção de civilizações avançadas. Moisés conseguiu juntar as tribos nômades dos judeus que viviam ao redor do monte Sinai, dando-lhes unidade nacional em nome do mito de Jeová. O evangelho de Jesus Cristo tentou substituir o Antigo Testamento pelo Novo, pregando o amor universal no lugar do ódio entre as várias etnias. Mas sua mensagem não deixou de ser uma utopia, pois as igrejas que dele surgiram não conseguiram pôr em prática seus ensinamentos. Seis séculos depois dele, apareceu Maomé, considerado o terceiro e último grande Profeta, que deu unidade aos povos árabes, construindo um poderoso império sob a égide do deus Alá. Judaísmo, Cristianismo e Islamismo cristalizaram inúmeros mitos que se encontram em   Escrituras consideradas sagradas. O grave problema do mito é sua fixidez que o transforma em dogma de fé, uma verdade inquestionável: o que Moisés disse três mil anos atrás numa pequena região, habitada por alguns milhares de pastores, é considerado válido ainda hoje neste mundo imenso de quase sete bilhões de seres humanos e após as revolucionárias descobertas da ciência!

Além das crenças religiosas, existem outras formas de mitos que as sociedades criam para ver seus sonhos realizados: o culto da beleza e da força física, o valor da riqueza e do poder, a superação dos limites nas competições esportivas etc. Relevantes são os mitos políticos: Hitler e a superioridade da raça ariana; Stalin e a utopia comunista. Infelizmente, estes, como tantos outros ditadores espalhados pelo mundo, causaram incalculáveis males à humanidade. Mesmo governos considerados democráticos cometeram e continuam cometendo crimes horrendos em nome de ideologias ou de interesses econômicos. Neste mês, a imprensa internacional está lembrando o agosto de 1945, quando aviões norte-americanos jogaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, matando mais de 150 mil inocentes, em poucos minutos. Até quando o ser humano, que se acha inteligente, continuará a acreditar em ídolos religiosos ou líderes políticos?

Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br

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