Delírio dos mortais

(*) Aparecido Raimundo de Souza.

 

Vocês já pararam, alguma vez, para analisar as contas que chegam todo os meses em suas casas, escritórios, ou comércios? Com certeza não. Caso contrário, tomariam um choque tão grande, que sofreriam um ataque fulminante do coração e partiriam desta para melhor. Acreditem, meus prezados, a roubalheira é tão escrachada, tão na vista, que só nos restaria apelar para Bin Laden. Por quê? Ora, ele seria o único que teria coragem suficiente para engendrar um plano (como a da derrubada das torres gêmeas, em Nova Iorque ) e mandar pelos ares todos os sistemas que nos esmagam e aniquilam e, de uma vez por todas, transformar essas espeluncas, num amontoado de escombros.

 

Para não nos tornarmos piegas, vamos analisar somente duas formas de cobranças que batem rigorosamente todos os meses, em nossas portas. As contas de luz e de telefone. Por elas, deveríamos sentir vergonha de morarmos neste país. Vergonha de sermos brasileiros e de encararmos nossos conterrâneos. Desprezo (não por nossos irmãos), mas pelas nossas pessoas, exatamente pela impotência que nos torna insignificantes diante do sistema que nos envolve. Deveríamos sentir vergonha pelos braços e pés atados, por não podermos fazer absolutamente nada para mudar esse quadro lastimoso. Sentirmos, sinceramente, raiva por não termos um sujeito de peito, de cara, de coragem, um elemento de fogo nas ventas, capaz de transformar em escombros essas arapucas que todos os meses metem as mãos em nossos bolsos e nos assaltam, nos aniquilam com as cobranças disso e daquilo, na certeza de que, se não pagarmos, no prazo determinado, sofreremos sanções as mais diversas.

Isso sem se cogitar no fato de que, além de termos os nomes negativados nos órgãos de restrições ao credito, permaneceremos mergulhados na escuridão total, com o corte do fornecimento da luz elétrica e, pior, em se tratando dos meios de comunicação, os aparelhos de telefones completamente afônicos.

 

Diante dessas questões, rogamos a vocês, caríssimos, percam alguns minutos do seu precioso tempo. Sentem a bunda no sofá, parem de ler as notícias de futebol, de se aterem às fofocas de artistas de televisão (isso não vai levá-los a nada), analisem como esses gângsteres da era Tropa de Elite atacam nossos bolsos no inicio de cada novo mês e o fazem da forma mais simples e corriqueira possível. É como tirar balas das mãos de uma criança indefesa, ou atacar uma velhinha desprotegida na esquina. Comecemos pelo talão da luz:

COBRANÇAS DA COMPANHIA.

Energia faixa 30KWH 30KWH X 0,151320 – Total R$ 453

Energia faixa 80KWh 50KMH X 0,260630 – Total R$ 13,03

Energia faixa 6 KWH X 0,262190 Total 1.57

Sub. Total 1 R$ 19.13

ICMS s/Desconto - Tarifa Social (19,54X25%

Sub Total 2 R$ 24.01

Pis (19,13X1, 89% 0,36)

COFINS (19,13 x 8.81% = 1.68 0,36

Observem um indivíduo que mora sozinho e gasta, por mês, R$ 4.50 de luz. Com os rombos (perdão, com os roubos que são acrescidos), a conta salta de insignificantes R$ 4.50 para R$ 39.45. Como nas pesquisas do IBOPE, COM UMA MARGEM DE ERRO PARA MAIS OU PARA MENOS.

 

Passemos, agora, as descrições da COMPANHIA TELEFONICA:

A coisa começa com uma espécie de lista de Schindler, não a do Steven Zaillan, encabeçada pela tal assinatura de USO RESIDENCIAL, ou USO NÃO RESIDENCIAL. Muito já se falou sobre essa questão. Virou polêmica. A imprensa caiu em cima alertando a população que essa taxa é indevida. A Internet se encheu de avisos de uma enorme leva de insatisfeitos que ingressou na INJUSTIÇA (isso mesmo), tentando se livrar da praga. Em paralelo, teve um deputadozinho de merda, que gritou, aos quatro cantos, que essa cobrança seria INCONSTITUCIONAL. Da até para gargalhar. Evidentemente mais uma piada de mau gosto. Inconstitucional ou não, todos os meses, o imposto vem figurando na fatura. Em seguida, entram em cena os pulsos dentro e fora da franquia. Mais uma maneira de cobrar uma taxinha embutida. Segue-se a isto, ligações para fixo e ligações para telefone local. E tome taxas. Note uma particularidade. Com elas, vem a cobrança do ICMS, com alíquotas variadas. Não podemos esquecer do ISS, bem ainda, as contribuições para o FUST, (1%) e FUNTTEL (0,5%). Resumindo. Um assinante que gasta, em média R $ 20.00 por mês, com ligações, desembolsa em cima desse valor, todas essas extras, o que eleva a sua conta para R$ 53.90. Não querendo repetir o jargão, mas já o fazendo, COM UMA DIFERENÇA MINIMA, PARA MAIS OU PARA MENOS.

Pois bem. Como o brasileiro é burro, de pai e mãe, é tapado, não enxerga um palmo adiante do nariz, vai ter algum imbecil que se levantará no meio da turba embasbacada: “Onde estão as mutretas?”. Resposta: na sua frente, ô palhaço! Exatamente nos demonstrativos. Nas tais faixas de 30, 80 e 6 KWH, no ICMS, na tarifa social que não vai para o social, mas para os bolsos dos malandros. O PIS e o COFINS são outras formas de se meter a faca no pescoço do assalariado sem distinção de raça, cor, ou crença religiosa. Uma forma de nos castrar. De calar nossa boca. Você saberia dizer para que serve o COFINS? Acertou em cheio se respondeu: para permitir que o cidadão tome no olho do cu de forma legalizada. Sem deixar vestígios. Mesma coisa, o PIS.

Todos os meses, indistintamente, levamos no rabo, bem no centro. Não só eu, mas você, seu vizinho, seu amigo, seu pai, sua mãe, seu irmão. Hospedamos, em nosso reto, uma trolha bem grande. Uma banana desse tamanho nos é enfiada, por esses “Bons Companheiros” (nada a ver com o Martin Scorsese, pelo amor de Deus) armados até os dentes, cuja quadrilha a policia nada pode contra. Esses Intocáveis tem num lado da ponta do fio, um Brian de Palma e, no outro extremo, O Poderoso Chefão, aqui representado pelo austero Francis Coppola. Isso quer dizer o seguinte: a polícia é conivente com o poderoso Chefão. As autoridades são coniventes com os chefes abaixo do Poderoso Chefão. O governo é conivente. Todos são lenientes. A galera, em peso, está atolada nessa pilantragem até a raiz dos cabelos. Ademais, se autoridade resolvesse alguma coisa, se presidente tivesse peito, brio e vergonha, o Brasil seria o país mais sério do mundo. Os incompetentes, nesta nação de safados, se equiparam aos números de presos em cadeias. Podemos exportar, por exemplo, celas inteiras com casaizinhos de estupradores ou menores infratores para os demais países que ainda nos sobrará uma boa quantidade em estoque.

O povo deveria arranjar uma forma sádica de se insurgir contra tudo o que é injusto e fere a sua moral e o bom senso. Uma forma única, à maneira do Homem que desafiou o diabo, que chamasse a atenção, que surtisse o efeito desejado. Fazer como os policiais civis, no Rio de Janeiro, que protestaram, na porta do Túnel Santa Bárbara, com copos de plástico nas mãos pedindo esmolas aos motoristas dos carros parados no congestionamento e aos passageiros dos ônibus. Nessa linha, existe uma forma típica de postura (foi usada uma vez em Portugal) não muito tradicional, mas irreverente, que bem serviria de exemplo digno e, acima de qualquer suspeita, para todos que se sentissem espezinhados, excluídos ou massacrados na sua dignidade. Ponto de origem. A multidão, em peso, em massa, pelas ruas da cidade. O país inteiro parado. De norte a sul, de leste a oeste. Do Oiapoque ao Chauí. As pessoas não se prestam a pagar mico em paradas gueys? Não saem, em público, com os rostos pintados de palhaços? Não carregam faixas pedindo segurança? Vejam se não seria o máximo. As mulheres mostrando seus dotes físicos apareceriam de calcinha. Os homens, de cueca. Fariam um buraco à altura da bunda. Nas mãos, vários consolos de borracha, à menção de enfiá-los traseiro à dentro. Em cada brinquedinho estaria escrito o nome de um pagamento a ser realizado, tipo MINHA CONTA DE LUZ, MINHA TAXA DE ÁGUA, MINHA FATURA DE TELEFONE, MEU CONDOMÍNIO, MEU IPTU, MEUS PEDÁGIOS, MEU DINHEIRO PARA A CPMF, etc, etc. Seria uma quase paródia aos Invasores, de Oliver Hirschbiegel.

Porém, nada disso vai acontecer, porque o brasileiro nato infelizmente, não tem uma visão crítica de si mesmo. É sempre, indistintamente, o Cavaleiro Didi e a Princesa Lili. É, sobretudo, cordato. A vaquinha de presépio, o manipulado. Vive em meio a um fogo cruzado. No meio dele se sente à vontade, como escravo da servidão da qual está encarcerado. Como um Tutancâmon, de três mil anos, vegetando sua eternidade numa tumba. O homem da terra trepa como se vivesse uma foda digital. Seu esperma explode, preso, porque seus colhões estão valvulados. Genuinamente o homem da terra não passa de um robô, como o Star Wars, só que ao contrario. É esquizofrênico por natureza, voluntariamente o imbecil da vez. A incultura parece ser o fator preponderante. Ele não tem coragem. Não tem motivos, e, por tabela, vive sem motivação. Não é fácil confessar candidamente uma coisa dessas, mas, somos todos uma enorme e infindável corrente minoritária vegetando os horrores que nos são impostos. Na verdade, não passamos de meras marionetes, em meio a um bando de lions for lambs, com eles disputando, de pires nas mãos, como abocanhar nosso mirrado salário de fome e enfiar nossas cabeças na lama. Apesar dos pesares, continuamos na estaca zero. Não fazemos nada. Não levantamos a bandeira de nenhum protesto sério, nem vamos ocupar as ruas em nome de um anarquismo faminto, de uma carta de euforia, onde pudéssemos gritar, de peito aberto, “Senhores deputados, Senhores Senadores, Senhores ladrões dessa massa que tem fome de tudo, o povo, não quer só contas para pagar, taxas disso e impostos daquilo, o povo está cansado dessa cafajestice, dessa impunidade, dessa falta de decoro, de brasilidade”.

Estamos cercados de deuses e monstros, santos e salvadores. Cordeiros e diabos. É o Apocalipse em sua melhor forma de expressão. Mas estamos anestesiados. E continuaremos assim. Viajamos na maionese. Ta tudo bem, ta tudo azul. Vem ai, agora, para acalmar os ânimos, a Copa de 2014. Povo idiota! Gente ralé. Gado sem dono. Como bem disse Giglanlhê de Stantesffer pensador de rua, que vende suas tiradas feitas na hora, para sobreviver, na Praça da Sé, em São Paulo - “Não passamos de uma leva de anencéfalos”.

 

(*) Publicado na Revista “Textos Inteligentes” – São Paulo - Edição Especial de (Terça-feira) 13.11.07.
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