Operação Naufrágio volta à tona
(e acaba em terra firme com todos a salvo)

Por : Aparecido Raimundo de Souza

$$$$$$$$$$$$

Em qualquer lugar do país, se o advogado não for de família tradicional, se não herdar do pai o nome pomposo de seus antepassados, não figurar na lista dos dez mais da Ordem dos Advogados do Brasil, não fizer parte da sociedade dos hipócritas, ou, por outra, não for amigo de algum figuraço do Poder Judiciário, pode contar que o cliente que pegar para defender estará fodido e “mau pago”. Da mesma forma o cliente. Se o sujeito for humilde - como se diz por ai, um tremendo de um pé rapado - ainda que o causídico faça das tripas coração, ou saia dando murros em ponta de faca na intenção de conseguir uma decisão favorável para livrar seu cliente da cadeia, os esforços sempre redundarão em vão. Sem contar, claro, com aquelas chatices de protocolar o pedido, esperar a boa vontade da distribuição, tropeçar nas lerdezas do sorteio, à noite e, dia seguinte, saber para qual relator o feito foi encaminhado. Isto quando o nome do suposto acusado aparece, no sistema, de imediato. Já houve noticias de casos de um pedido a um determinado tribunal demorar trinta e dois dias para ser visualizado no site. Ser advogado, neste país de pilantras, é nadar, nadar e morrer na praia, assim como exercer a profissão de  defensor de alguém é levar no rabo todo santo dia e voltar para o escritório com o cu ardendo de tanto tomar chá de banco.

$$$$$$$$$$$$

Uma pergunta não quer calar: será que o motivo de tamanha demora nos judiciários para a tramitação dos  processos estaria relacionado diretamente a grande enxurrada de distribuições que acontecem todo santo dia? Um Hábeas Corpus, por exemplo -, segundo a Constituição Federal, aquele remédio jurídico que deveria devolver, de imediato, a liberdade de um cidadão, leva, no máximo, quarenta dias para ser julgado. O infeliz que o impetra, para conseguir uma simples decisão monocrática (decisão monocrática é aquela em que o relator, dependendo da grana envolvida na historia, se manifesta tão rapidamente, que ele próprio, relator, se espanta com a rapidez da sua mão no deslizar da caneta) padece, fica, literalmente, a ver navios. Nos demais casos, não tendo o “faz-me-rir” na frente, o cidadão carente perde, nesse jogo de empurra, um mês, e meio, senão mais. Esse é, pois, o nosso Judiciário. Essa é a nossa Justiça. Alguém já disse que a “justiça é uma puta bem safada, tão envergonhada de si mesma que tampa os olhos com uma venda”. A isto seria de bom alvitre acrescentar que, “ela só tira a venda dos olhos quando o vil metal vem na frente, falando alto,  disfarçada na figura de uma bela e charmosa ninfeta de quinze anos metida numa minúscula calcinha de nylon. No Brasil inteiro é assim. Se formos colocar na ponta do  lápis, não existe nenhum estado da Federação que se salve, ou que possa vir a público e mostrar a cara de seus juizes ou de seus desembargadores sem a pecha da corrupção.

$$$$$$$$$$$$

Portanto, não é o acumulo de feitos  que chegam todos os dias que emperram o judiciário, ou que não deixam a coisa fluir, mas a grana, a baba, a bufunfa, os cifrões $$$$$$$$$$$$, as verdinhas que move a máquina e desemperra as engrenagens. Quem tiver mais, chora menos. Pode o advogado ser um profissional excelente, um ás na área criminal, saber todos os códigos de cor e salteado, como um rábula formado em Camamú na Bahia, ou na Sorbone, em Paris. Se ele não fizer parte da panelinha, seu cliente tomará na tarraqueta (entenda-se aqui, tarraqueta por olho do cu), ao contrario do nascido em berço de ouro, que desfrutará de todas as vantagens e regalias. Bastou ter condições financeiras, os bolsos abastados, juiz abre as pernas, promotor desce as calças, desembargador vira o traseiro e a despudorada da Justiça, incondicionalmente, mostra a fuça, tira a venda, dá o caneco (alguém já viu a justiça fodendo?) e resolve o problema. Justiça, portanto, se traduz por condições financeiras, se mede pelo poder aquisitivo, se pesa na balança, pelos fundos que o elemento que a invoca tem nos bolsos. O “quantum” da sua conta bancaria, atrelado ao número de folhas do seu talão de cheques, bem ainda os cartões de credito que possui, é o que vai fazer dele, indiciado ou desendiçiado, acusado ou desacusado, elemento ou Cidadão de bem, assim como réu, ou não. O volume da “gaita” é quem dará as cartas, dirá, na prática, se ele cometeu ou não determinado crime. Com dinheiro (malas com cabeça), o Código Penal passa a ser um livro de piadas. Sem dinheiro, o mesmo livro conta historias horríveis, de “bichos estranhos, tipo 121, 171, 157,  ao contrario das malas, onde surgem, em cena, uma porrada de mulas e, pior de tudo, sem cabeças.

$$$$$$$$$$$$

Fato idêntico ocorre nas igrejas nos moldes e padrões da Universal do Reino de Deus e outras espeluncas do mesmo porte. Quanto maior a oferta do dízimo, melhor as condições $$$$$$$$$$$$ do Todo Poderoso receber o infeliz lá no céu com festas regadas a vinhos e champanhe importados, mulheres bonitas, bandinha tocando e anjinhos vestidos com roupões de grife dedilhando harpas com musicas paraguaias. Sem oferta, o recém chegado purgará por um bom periodo nas garras de Satanás. Por assim, não seria diferente, como de fato, não foi, lá no Espírito Santo, onde a Policia Federal numa operação cognominada Naufrágio e pasmem, sem barco ou navio afundando, desmantelou e levou para o fundo da linda ilha de Vitória, aliás, diga-se de passagem, a capital da terra de Roberto Carlos, Elisa Lucinha, Stenio Garcia, Rubem Braga e tantos outros nomes famosos, os não menos galãs Frederico Guilherme Pimentel, presidente do Tribunal de Justiça (TJES) que foi preso (sic...) e conduzido para Brasília juntamente com outros imponentes e intocáveis, os também desembargadores Elpídio José Duque e Josenider Varejão Tavares, bem ainda o juiz Frederico Luiz Scheider Pimentel, filho do presidente afastado e a linda e encantadora diretora da Distribuição Senhorita Bárbara Sarcinelli e outros dois “devogados” renomados, denunciados por compra de sentenças.

$$$$$$$$$$$$

Resumindo o esquema, o circo funcionava mais ou menos assim: advogado famoso, cliente famoso, pedido de Hábeas Corpus distribuído. A peça vestibular caia nas mãos da Sarcinelli. Ela era Bárbara. Uma quase santa. Fazia milagres. O processo, em suas mãos, não andava, voava, não ia a cavalo, mas a jato. Caia, ato continuo, na mesa de Duque, que apreciava o pedido num abrir e piscar de olhos e vendia a decisão por baixo dos panos e não como todo mundo pensava, no varejão. Presidente afastado, desembargadores afastados, juiz afastado, o Pleno, em seção de portas fechadas presidido pelo presidente em exercício Álvaro Bourguignon (lembram dele??? Aquele do caso Guaranhuns...) se reúne extraordinariamente e afasta o Papa da Justiça Capixaba. Imediatamente, quem toma no belo traseiro, é a coitada da Bárbara Sarcinelli, que sumariamente se vê EXONERADA a bem do serviço publico. É aquela velha historia da corda rebentando para o lado mais fraco outra vez se repetindo. Essa é a nossa Justiça. Entre mortos e feridos, sobreviventes e sobrevividos, uma coisa pode ser tomada como certa: embora a Polícia Federal tenha feito um estardalhaço nos moldes de um set de filmagens, Fredinho vai ser solto, Frederiquinho vai ser solto, Elpídinho, vai ser solto. Toda essa escumalha  voltará para casa numa boa, bebendo wisk, comendo amendoim torradinho,  de avião particular, com todas as despesas pagas, da mesma forma como saíram no dia da “prisão”. Com as regalias correndo por conta do povinho sofrido, que ainda acredita e leva fé na porra da justiça. Como nas demais cúpulas existentes por ai a fora, não só lá no Espírito Santo, mas por esse Brasilzão sem fronteiras, toda operação, seja ela Satiagara, Operação pente Fino, Operação Puta que pariu, e, agora, esta, apesar do bonito e sugestivo nome Naufrágio, vai terminar como todas as anteriores inventadas pela Federal, ou seja, a farsa alcançará seu ápice numa inesquecível reunião num clube de campo, regada a churrasco com carne de  primeira e taças até a borda com  vinhos da melhor qualidade.  

$$$$$$$$$$$$

É provável que nesse pandemônio todo, sobre para alguém. Sempre sobra, acreditem. Em toda merda que se meche, precisa aparecer um pau que foi lá cutucar.  Nada mais justo que o ilustre delegado da Policia Federal, ou do superior dele, que deu a ordem para “prender” os bufões do alto escalão da justiça Capixaba. Uma coisa é certa como o sol brilhando no infinito: os doutos delegados que arriscaram a pele e cumpriram a ordem de prisão dos “malandros e salafrários do judiciário capixaba, logo naufragarão, de vez, e, logicamente, sairão molhados, sem coletes salva-vidas, dos quadros da instituição. Pela boceta do judiciário (também conhecido como “via de regra” ou “via de conseqüência”), não despenquem, de repente, essas figuras, de seus cargos e passem a lavar e a polir as viaturas no pátio da sede da Policia Federal em São Torquato , Vila Velha. Com certeza, a corda - lembram da corda – aquela que colocaram no pescoço de um tal de Tiradentes - novamente rebente para o lado mais fraco. Um detalhe que passou despercebido aos olhos de todos, e, agora, emerge do nada. Será que o ilustre delegado que comandou a Operação Naufrágio $$$$$$$$$$$$ protocolou antes de se por em campo um pedido na Murrinha do Brasil – $$$$$$$$$$$$ Capitania dos Porcos, para poder fazer uso do nome NAUFRÁGIO em sua agastada comédia pra boi dormir? Ah, quase esquecíamos dos $$$$$$$$$$$$. Embora o país esteja passando por uma crase (ou seria crise?) braba, os $$$$$$$$$$$$, para certas camadas sociais não perdem,  jamais, os valores que pomposamente ostentam em seus chifrões. Ops!! Cifrões.

(* ) Aparecido Raimundo de Souza é jornalista e autor dos livros: Quem se abilita? Com os chifres à flor da cabeça, Mulheres em estado de coma, As mentiras que as mulheres gostam de ouvir e A outra perna do Saci, todos publicados pela Editora Celeiro de Escritores São Paulo.

MAIS TEXTOS DO AUTOR PODEM SER LIDOS NA INTERNET, BASTANDO, PARA TANTO, IR NO “GOOGLE” E DIGITANDO SEU NOME POR EXTENSO.         

aparecidoraimundodesouza@yahoo.com.br

Outros textos do mesmo autor podem ser lidos em:  

www.paralerepensar.com.br/aparecidoraimundo.htm

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 20 /03/2009

Voltar