Nós, os Terroristas

Por : Leonardo Magalhãens

Estamos, eu e outros vultos, sob um viaduto, manipulando arames. Mas estamos numa retaguarda, pois, a nossa frente, sob os pilares de concreto, está uma especialista – sei que é uma mulher, apesar das vestes um tanto militares – instala uma caixa. É a bomba. O que instalamos são os fios do detonador.

Corremos a ladeira acima, onde temos uma visão ampla da rodovia. Detonamos os explosivos. A pista se contorce, salta e desaba. Carros somem. Caminhões derrapam e colidem. Gritos horrendos perfuram a tarde. Comemoramos. Nós, os terroristas.

Mas alguém já nos observa, pois somos interceptados. Unidades militares nos cercam. Dispersão. Os que não se rendem são metralhados. Invadimos uma mansão junto a ferrovia. Estamos cercados. Observamos as manobras diante da casa. Um helicóptero escandaloso.

Como fugir? Armamos planos. Há um muro de arrimo ao fundo, que escalamos, sob as árvores que nos ocultam. Mas é inútil.

Todos são presos. Psicologicamente nos preparamos para a prisão. Nós, os terroristas. Não lembro de qualquer julgamento, além do público, que nos odeia, nós os facínoras.

A prisão. Penitenciária de segurança máxima. Grades sobre grades. Vigilância dos olhos eletrônicos. Cada movimento seu. Como sobreviver ali? Logo que chegamos somos separados. Meus companheiros estão em outras alas. A especialista vai para uma prisão para mulheres, em outro Estado.

Logo que chego sinto a fria recepção. Sou esperto e fico na moita. Não manifesto nada, fico num canto. À tarde, trabalhamos na horta. Lá pagamos com o nosso suor a nossa dívida para com a sociedade.

Mas acontece que dois presos se desentendem e se ameaçam com as enxadas e os ancinhos. Se agridem. O mais esquentado persegue o outro com a enxada em riste e teria esquartejado o outro se não o tivessem imobilizado a tempo. Guardas robustos o derrubam na lama.

Todos de volta às jaulas. Era uns dez em cada cela. Nada amistosos. Seres brutos, e eu um gênio da eletrônica. É um ultraje isso. Preso com ladrões de lotéricas e batedores de carteira. Ao menos se um assaltante de banco... Fico calado o dia todo. Sou o último a usar o banheiro, e sempre o encontro imundo.

Evito os esportes no pátio. Prefiro um livro. Se houvesse um. Estou de pé no corredor, as jaulas abertas, o pessoal banhando-se no sol. Uma faxineira lava os sanitários. É gorda e alta, bem corpolenta. Não raro vejo prisioneiros insinuantes cantando-lhe propostas. Ela tem um olhar malicioso.

Aqui em pé, no corredor, vejo que trazem o grandalhão que brigou na horta. Dois enfermeiros o trazem, suspenso. Ele tem um ar meio idiota. Foi sedado, com certeza. Uma enfermeira vem em companhia, a trazer uma maleta. Deitam o prisioneiro na cela ao lado da que ocupo, e extraindo da maleta uma grossa seringa, injeta mais entorpecentes no sonâmbulo. O que o manterá calmo até amanhã.

Vejo a corpulenta faxineira entrar no banheiro da cela. No fim do corredor passa um guarda. Pára e observa-me. Ele adora fazer isso. Observa-nos como cobaias de experimentos. Ignoro-o . A faxineira assobia aspergindo abundante água.

Um vulto ao meu lado. Um prisioneiro mais antigo, reincidente. Cabelos brancos. Um olhar malicioso e indaga-me: - É ela, não é? A grandalhona? Entendo que se refere a faxineira. Confirmo num gesto. Ele pede-me atenção, que observe o movimento ali, que ninguém entre na cela. E entra no lavabo atrás da grandalhona. Irrompem sussurros, uma queixa, então gemidos. Estão ocupados. E logo esqueço-os.

Outros retornam dos pátios. Ninguém me dá atenção. Nos ignoramos solidários. Não me conheça e não te conhecerei. Alguém meio sonolento ou drogado entra no armário onde estão os materiais de limpeza, talvez pensando ser um sanitário. Baldes se precipitam e ele tropeça numa vassoura. Caem latas de desinfetante. O ruído me arranca do torpor. Um escândalo.

Acorrem alguns curiosos. Dois guardas avançam no corredor. Se aproximam. Preciso avisar o cara que enraba a faxineira. Vai que o surpreendam... Reaparecem os enfermeiros e a enfermeira. Ele prepara seringas. Muitos ao redor a cumprimentam, sorrisos maliciosos. Preciso avisar o cara no banheiro. Não terá ouvido nada? Mas para isso preciso atravessar a turba de curiosos. O cara meio aos baldes está desacordado. Está drogado, diz alguém. Aí alguém me insulta, ao meu lado. É o cara de cabelos brancos. Ao seu lado um dos enfermeiros. Surpreendera-o ocupado com a faxineira. O cara me insulta. Custaria avisar e tal? Eu um morto-vivo, um inútil, etc.

Os guardas começam a agir afastando os curiosos. Alguém insinua que o cara ali está é morto. Overdose. Os enfermeiros pedem espaço. Os guardas distribuem cotoveladas e empunham cacetetes.

Mas os que agora sobem vindos do pátio engrossam o caldo. A dispersão que começara é abortada. Alguém fala em violência policial. Reclamações se espalham. A coisa vai esquentando. Mais policiais na área. Alguém grita no fim do corredor que não somos gado, mas seres humanos. Outras vozes exigem Abaixo os brutamontes! Fora os policiais! Outros passam à ação. Imobilizam os policiais, arrancam suas armas e dedos. Pisam as costelas dos opressores. Tumulto generalizado. Volto para a cela e tampo os ouvidos onde ainda ressoa o apelo à rebelião.

Não sei quanto tempo durou a crise. Não sei o que me aconteceu. Lembro das narinas irritadas, a respiração opressa, os olhos úmidos, um torpor mental. Gás, com certeza. Desmaiei, sem dúvida. Acordo e uma enfermeira ao lado. No meu braço direito um tubo de soro. Um guarda interroga outros presos. Não estou no ambulatório. É ainda a cela.

É a minha vez. O guarda se aproxima e é ríspido

Por que fulano te espancou?

E fulano me espancou? – estou mesmo surpreso – Acho que se tal houvesse me agredido eu acordaria hoje? Que hematomas tenho?

O guarda não gosta. Quer que culpemos uns aos outros para abafar a violência da segurança.

Eu aqui fico na minha – eu continuo – não dou opinião, não manifesto. Aqui qualquer coisa desagrada. Se olha pra alguém ele te agride. Se o ignora ele diz que é desprezo. Fico no meu canto.

A enfermeira sorri. Mostra uma seringa. Tudo escurece.

30/jan/03

Leonardo de Magalhaens

http://leoleituraescrita.blogspot.com

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