Faces do Populismo nas Américas - Fidel, Chávez, Lula, Morales e Obama

por : Leonardo de Magalhaens

As definições do que seja 'populismo' variam com o tempo, e segundo os estudiosos. Há quem julgue o 'populismo' pior que o fascismo, ou o fascismo uma modalidade de 'populismo'. Outros dizem que os totalitaristas sempre são populistas (assim Stálin e Mao, além de Pol Pot seriam 'populistas'!) O que apenas esvazia o conceito e pulveriza o discurso.

Um importante requisito para se identificar um 'populismo' é a figura de uma 'líder popular', ou seja, um sujeito que se diz representar as 'massas populares', que diz 'agir em nome do povo'. Assim, realmente, tanto Lênin, quanto Mussolini e Hitler, e também Vargas, seriam 'populistas', pois se ergueram em 'nome do povo'. Para 'libertar e salvar' o povo da Decadência, e dos poderes obscuros. (Hitler dizia salvar a Alemanha do mercantilismo e cosmopolitismo judaico, por exemplo)

Assim analisando, o Fascismo (ou OS fascismoS) seria uma forma de populismo, mas NEM todo 'populismo' é Fascismo (leiam os meus textos sobre o assunto no meu modesto blog leonardomagalhaens.zip.net , e vão entender) uma vez que o 'populismo' pode ser de 'esquerda', em nome da social-demo- cracia, mas sufocando a democracia.

Podemos ver estas personagens reunidas num evento como a Cúpula da Américas , a mais recente em Trinidad e Tobago ( 17 a 19 de abril), onde Obama não hesitou em elogiar Lula e vice-versa. Sorrisos à vontade e fotografáveis apertos-de-mão. Tudo para inglês (ou a Imprensa) ver. Mas o quanto estes líderes representam realmente o 'povo'? O quanto consultam suas 'bases eleitorais' para legitimarem suas decisões?

Pois é conhecida a figura retórica do 'demagogo', aquele que diz falar em nome do povo, mas somente representa meia dúzia de fidalgos. A 'demagogia' é proporcional a distância entre o povo e o governo. Vide o exemplo clássico brasileiro do Sr. Getúlio Vargas (que tem gente defendendo o ditador até hoje!!), que usavam e abusavam da imagem de 'pai dos pobres' como uma forma de paternalismo sobre as massas populares (que acreditavam realmente, a ponto de chorarem compulsivamente nos funerais do político suicida). E nas Américas o que não faltam são figuras assim. Desde o Bolívar.

E por falar em Bolívar, lembramos do Chávez. Um ditador de gabinete que se diz 'socialista', igualzinho ao guerrilheiro no poder que se diz 'socialista', para agregar o apoio dos 'estatistas de esquerda'. Lembraram do Sr. Fidel Castro? Pois é, gente que usa o crachá de 'socialistas', mas que nunca passaram do primeiro capítulo do “ Manifesto Comunista ” ou do primeiro parágrafo de “ O Capital ”. Usam assim uma 'imagem' anti-capi- talista para melhor agregar os 'desfavorecidos', os 'descamisados' (quem não se lembra do Collor?), e melhor legitimar seus golpes de Estado.

Assim fez Mussolini e Hitler, e assim muitos outros, que alegam que a 'voz do povo é a voz de Deus' (desde os romanos com o famoso ' vox populi, vox dei ' ) e sempre 'agiram guiados pela vontade popular'. O que é uma mentira considerável. Estes líderes sempre representaram elites (econômicas ou militares) que raramente saem do poder (e quando são retiradas, outras elites ocupam o lugar no alto), e nunca o 'povo' (entidade por demais abstrata') chega ao poder.

Assim, os líderes gostam de atacar as esferas de representati- vidade, por exemplo, os Parlamentos, pois alegam que os deputados são inúteis e custosos. Além do mais, os líderes se dizem unidos DIRETAMENTE às massas populares, não precisando de 'intermediários'. (Coisa que os fascistas fizeram e o resultado todos (?) conhecem. ) Então, os ataques ao Legislativo (e depois ao Judiciário) nunca são em vão! Quando – ao contrário de uma 'reforma política' – passam a pregar uma 'destituição' dos representantes (por menos populares que sejam), uma atmosfera de 'golpe de Estado' está no ar.

Assim é Chávez, assim é Morales. Ambos dizem representar 'anseios populares' ou 'grupos excluídos do poder'. Mas ambos são 'demagogos' em promessas que, enquanto 'gerentes' do capitalismo, não podem cumprir. As elites que
sustentam ambos não permitiriam um verdadeiro 'governo popular' (a menos que houvesse uma real 'revolução' para
substituir eleites por outras...) e qualquer tentativa de 'subversão' (ao que cada um dita) é logo abafada. (Assim foi
com Mussolini e assim é com Putin, por exemplo)

A figura do 'líder popular' aclamado, nos 'braços do povo', seja um Vargas ou um Péron, é uma assombração que ronda a América Latina (principalmente!) quando as massas deses- peranças são atraídas por ocasionais promessas de um líder 'recarregado de esperanças' – que mantém assim a 'roda' girando. Lula se prestou muito bem ao papel – os índices de popularidade bem indicam – e continua cumprindo as directivas de grupos de poder e suas legislações que somente favorecem eles mesmos, mas sempre dizendo que 'atua em nome do povo'. Paternalismo e nada mais. Sem mudança estrutural não há renovação.

Cestas básicas, vales-refeição, vales-transporte, bolsa-família, bolsas-de-estudos, tudo isso são migalhas que caem da mesa de banquetes dos quais o povo está terminantemente excluído. (É que a burguesia sabe dar os anéis para ficar com os dedos intactos – coisa que a nobreza não soube fazer...) E depois o Lula é o querido do povo, não faz mal a uma mosca (ou a um banqueiro...) e assim quem vai se arriscar a incomodá-lo? (ao contrário das figuras de Jango e Brizola, que deixavam a eleite arrepiada!).

“ Todos iguais, mas uns mais iguais que outros ”, assim os Porcos tomam o poder em “ Animal Farm ” (Revolução dos Bichos) de George Orwell, quando os animais fazem uma revolução, destronam os homens, apenas para que, logo em seguida, os Porcos tomem o poder, em nome dos demais bichos! Seria irônico, se não fosse trágico! Mas os líderes populistas fazem o mesmo: se articulam com as elites, a partir de concessões, onde alguns atuam como 'pelegos', ao aliviarem o 'peso social', a opressão financeira sobre as massas populares, ainda mais em países de grande desigualdade social, como são exemplos os latino-americanos.

Mas acham vocês que o populismo se restringe aos latino-americanos? E a figura de um Obama? O que lembra? De JFK? De Roosevelt II? Ora, em momentos de crise (econômica ou não) as massas populares, em alvoroço, precisam ser 'apaziguadas' por promessas: daí a figura 'doadora de esperanças', um Messias, que vem redimir e purificar (qualquer semelhança com o Duce ou o Führer não é mera coincidência!) Assim agiu Roosevelt, com seu New Deal , sabendo que o 'capitalismo vai mesmo mal das pernas'.

O mesmo Obama que recebeu um livro (“ As Veias Abertas da América ”, obra importantíssima do uruguaio Eduardo Galeano) das mãos do populista golpista Hugo Chávez, lá em Trinidad e Tobago; o mesmo Obama que proclamava “ We can change ”, mas sem dizer: mudar em quê? Mudar pra quê?; o mesmo Obama que discursava contra os 'gastos militares', e agora vai aumentar os tais gastos, com mais tropas para o Afghanisthan! Obama que subiu devido as burrices e ignorâncias diplomáticas e geopolíticas do Sr. Walker Bush, que era sustentado pelos senhores feudais do ouro negro, o petróleo. Os seres mais anti-ecológicos que este planeta já produziu!

Se o Sr. Obama seria populista? Vejamos. Na medida em que arregimenta multidões, com sua bela retórica e retumbante oratória (que o cidadão fala bem mesmo!) e manipula as esperanças do povo norte-americano (e de resto do mundo!) quando a uma mudança da política ianque de imperialismo em 'nome da democracia' (que os EUA seguem desde a I Guerra Mundial ). Assim podemos dizer que o ex-senador seria tão populista quanto o Lula, “carregado nos braços do povo”, do mesmo modo como o ex-sindicalista, quando de sua eleição em 2002, e reeleição em 2006.

Que ações e legados deixarão os 'populistas'? Somente as novas gerações vão saber. Por enquanto as cotas de esperanças estão asseguradas e renovadas. Até a próxima crise a ameaçar e os próximos Messias aparecerem com mais promessas de salvação.

Abr/09

por Leonardo de Magalhaens

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