Jarbas Passarinho: A Voz da 'Direita' Brasileira

Por: Leonardo de Magalhaens

Os conceitos de 'direita' e 'esquerda' no 'espectro político' do Brasil são os mais cambiantes possíveis, dependendo do discurso e da ação, do contexto e das alianças. O que seja 'direita' e 'esquerda' é pouco definido. Convencionou-se apartir da posição dos representantes franceses que sentavam-se à esquerda no plenário, sendo os mais de vanguarda, enquanto os mais conservadores se sentavam à direita.

Mas no Brasil, os critérios (vanguarda X conservadorismo) não se aplicam. Um político de 'esquerda' pode agir na prática como 'direita', e um de 'direita' pode usar métodos de 'esquerda'. Assim, um cidadão desprevenido nunca saberá onde a 'direita' acaba e onde começa a 'esquerda', pois ambas estão absurdamente misturadas (quando não 'aliadas').

Dependem uma da outra (e quando não há 'esquerda', a 'direita' trata logo de criar uma...), como uma lei de 'ação e reação', como duas faces da mesma moeda: o radicalismo. O radicalismo de um lado para justificar o radicalismo do outro. E quem vence passa a contar a história através de uma perspectiva ideológica.

Um dos problemas do século 20 foi o Centro, os ditos democratas liberais, flertando com um lado ou outro. Assim, o Centro usando a 'direita' contra a 'esquerda', para logo depois ser descartada pela 'direita'. (Na Alemanha aconteceu assim assim nas décadas de 20 e 30, e todos conhecem os resultados nefastos) O radicalismo consegue apenas fragilizar a Democracia e perpetuar os domínios das elites (ou uma elite sendo substituída por outra...)

Estas indefinições da 'política na prática' confundem os cidadãos, vez ou outra 'eleitores' (o cidadão só é cidadão quando vai votar?) que pouco entendem de definição (também com os alunos sendo obrigados a decorar os reis da Inglaterra! e pouco sabendo sobre os vereadores da cidade onde moram!) que acabam por votar no candidato da maioria, o 'carismático da vez' (ou seja, votam no Candidato, não no Partido, na Carreira política, na Ideologia, etc)

Contudo, sempre temos os links. Se a 'esquerda' tem Che e a estrela vermelha, ou os maltrapilhos Marighella e Lamarca, a 'direita' tem o Duce , o Führer , o Caudilho, ou os integralistas Salgado e Barroso, os policialescos Müller e Fleury, os militaristas Mourão e Frota, os tecnocratas Campos e Delfim Netto, além do militar-jurista-ex-congressitas Jarbas Passarinho.

Militar reformado, ex-governador, ex-ministro, ex-senador, atualmente colunista na seção OPINIÃO do jornal Estado de Minas , o Sr. Jarbas Passarinho tem se manifestado como o legitimador-mor da Ditadura Militar que oprimiu este país por 21 anos, em nome da Democracia. (Seria cômico se não fosse trágico) Os artigos de Passarinho são publicados às terças-feiras no jornal fundado por Pedro Aleixo ( o mesmo que apoiou a Revolução de 1930 e depois assinou o Manifesto dos Mineiros , em 1943, contra o Vargas ditador, e depois foi vice do Marechal Costa e Silva, participando da famosa e sombria reunião do AI-5), e passariam despercebidos (como muita coisa passa despercebida na imprensa escrita, uma vez que a leitura se limita às manchetes e às páginas policiais...) se não fosse o tom reacionário.

O que é 'tom reacionário'? É justificar um retrocesso com apurado discurso de 'racionalidade instrumental', com análise tecnocratas e em defesa da 'inviolabilidade' da Democracia (desde que permaneça tudo o mesmo, e a 'boa gente' no Poder), contra toda

'subversão' de agentes terroristas de 'esquerda' (ah, o que seria da 'direita' sem os 'terroristas de esquerda'?!) Assim, em nome da Democracia, os militares reacionários, convocados pelos civis reacionários (é triste, mas é verdade! Nossos bons liberais centristas recorrendo aos direitistas...) para esmagar as forças 'esquerdistas'.

Como se o Brasil estivesse destinado a um 'regime comunista'! Nem para o 'socialismo estatista' o povo estaria preparado! (A Revolução enquanto partidarismo, de uma força de vanguarda seria mesmo mero 'golpe militar', sem uma educação socialista que esclarecesse o povo, que ainda nem chegou a Idade Moderna, nem entendeu o que seja Liberalismo, é ainda pré-Positivismo, ainda vive no mundo mágico e místico de Antonio Conselheiro e Padre Cícero...) O Brasil revolucionário é a maior quimera que já se viu! (Desde o inoportunismo da Intentona Comunista , em 1935, apesar do heroísmo de um Carlos Prestes e de uma Olga Benario, que apenas conseguiu o ódio do Exército e o 'endurecimento' da ditadura varguista, o Estado Novo , em 1937) Mas o Brasil não merece uma Revolução, enquanto o povo não realizá-la e dominá-la, e para isso precisa antes de tudo de Educação!

Pois bem, o Sr. Jarbas Passarinho nada diz sobre tais assuntos. Continua repetindo o refrão: “salvamos o Brasil do Comunismo”, do mesmo jeito que a mídia denomina “Socialismo” os regimes opressores de Cuba e China, como se a única Democracia fosse a capitalista (neo)liberal. (Se é que ainda existam neo-liberais!) E que todo “socialismo” resvala para uma ditadura, onde uma Elite substitue a elite destronada, esmagada, assassinada. (Como se a Revolução Russa fosse modelo para todas as revoluções, visto que o povo russo nada entende de Democracia! Basta ler Dostoiévski...)

As elites precisam manter o povo atrasado, com suas políticas 'populistas' e 'paternalistas', para que o povo não seja educado e esclarecido e lute pela Revolução, sem precisar de 'terroristas' partidários (vindos de Moscou??) para liderar e depois virar outra elite (quem já leu Revolução dos Bichos? Pois é!) então vem o Sr. Passarinho com o seu desserviço, o mesmo discurso repisado, com ares de 'salvador da pátria', como se a 'direita' não precisasse de uma 'esquerda' para manter-se no poder.

As Forças Armadas nos salvaram de uma anti-democracia de esquerda? De que forma? Com uma anti-democracia de direita? Que belíssima escolha! (Vejam o artigo de 04.11.08) O capitalismo se renova, por isso até hoje não acabou? (vejam o artigo de 11.11.08) Ora, é porque os burgueses cederam os anéis, e assim evitaram perder os dedos, o jeito que perderam os nobres. O 'paternalismo' é uma excelente forma de 'remendar' o capitalismo, e as elites fazem isso desde a crise de 1929, com os paliativos de Keynes, o estatismo do New Deal, o trabalhismo varguista, o W elfare State dos europeus, esses reformismos para Wall Street ver.

Outro absurdo é insistir na figura de Jango como 'socialista', como se o presidente deposto não fosse um latinfundiário, um trabalhista varguista, que se movimentava muito bem nos círculos de poder, até prometer o que não tinha força política para cumprir: a reforma agrária e a reforma política. Se aliando a sindicalistas e reformistas, mas incapaz de congregar todas as forças como uma base de sustentação. Então o Centro foi pedir ajuda à Direita nos quartéis e eis o Regime Militar, em 1964, e depois o Golpe dentro do Golpe, em 1968. Aula de História que o Sr. Passarinho não esclarece. Ainda preocupado em apontar as misérias de Cuba (um estado realmente socialista?) (artigo de 18.11.08), atacando a elite cubana e oportunamente esquecendo a elite brasileira.

Ou sentindo saudades dos discursos conservadores do Sr. W. Bush, quando descreve a figura do novo presidente Obama (artigo de 25.11.08), ou relembrando as 'eleições livres' (sic!) durante o Regime Militar, no artigo de 09.12.08) o que soa no mínimo surreal, ao sabermos que nem nesse arremedo de Democracia representativa há qualquer 'eleição livre', tudo não passando de 'cartas marcadas', onde o cidadão vira 'cidadão' na hora da eleição! Onde os políticos fazem o que querem e se fingem de inocentes! (No que ajudam a 'direita' que não hesita em atacar o Congresso, como todo bom general, rotulando o Legislativo de inútil e obsoleto! Não devemos fechar o Congresso, mas realizar uma reforma política para desalojar os oportunistas!)

Mas o estopim mesmo, para este texto, foram os artigos de abril, quando da morte do MMM, o deputado que ironizava os militares, onde o Sr. Passarinho aparece como o campeão da defesa dos militaristas, acusando a 'revanche' dos vencidos, como se a 'geração lula-lá' fossem os socialistas que amamos, como se vivemos um 'governo de esquerda' (com a 'esquerda' que existe por aí, nem precisamos de 'direita'...), e que agora sofremos com os 'comunistas' que foram afastados do poder devido a gloriosa interferência dos nacionalistas militares (os mesmos que não hesitaram em entregar este país aos capitais estrangeiros, coligados aos interesses ianques! Que nacionalismo é este? Trocar 'Moscou' por 'Washington'?)

Em suma, nenhuma novidade, o que caracteriza bem o discurso de 'direita', sempre o mesmo, enquanto as nossas 'esquerdas' repetem as cartilhas ultrapassadas, e são incapazes de educar as massas populares, deixando tudo por conta das ong s e dos paternalismos lulistas chavistas populistas. E assim o Sr. Passarinho tem assegurada a sua cota de fiéis leitores: os cidadãos que se dizem liberais e democratas mas continuam incapazes de definir o que seja 'liberalismo' ou 'democracia'. E permitem que a 'boa gente' de 'direita' interprete tudo direitinho.

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Por : Leonardo de Magalhaens

http://leonardomagalhaens.zip.net

links:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/treinamento/hotsites/ai5/personas/jarbasPassarinho.html

http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao

http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/diversao

o AI-5

http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=194620

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ato_Institucional_N%C3%BAmero_Cinco

http://www1.folha.uol.com.br/folha/treinamento/hotsites/ai5/

Passarinho no estado de Minas

http://massote.pro.br/2009/03/o-estado-de-minas-passarinho-e-sarney-fernando-massote-2/

e http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=532IMQ009

“a esquerda também torturou”, diz Passarinho

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2914228-EI6578,00.html

a 'direita' é fã do Passarinho

vejam o blog:

http://blogdaunr.blogspot.com/2008/12/jarbas-passarinho-e-o-ai-5.html

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