“PAULINHO POUCA SOMBRA”

Por : Pettersen Filho

                      Se, por acaso, em situação de emergência policial ou de socorro eminente, alguém procurar, em uma das Delegacias de Polícia do Estado do Espírito Santo, pelo Policial Civil “ Paulo ”, provavelmente, terá como resultado que o tal indivíduo, chamado Paulo, é completamente desconhecido na Instituição, obtendo como resposta que tal pessoa é estranha aos seus quadros efetivos.

                      No entanto, trata-se de elemento dos mais valorosos e atuantes da Polícia Civil capixaba. Sujeito bom caráter, Servidor assíduo e zeloso, ao que me consta, também bom Pai e Marido.

                      Então, pergunta-me-iam: Por que, afinal, o estranhamento ? Por que, então, em primeiro momento, quando da busca por ajuda, ninguém na Instituição identificá-lo como, efetivamente, Policial, que o é, a partir do próprio nome que ostenta, “ Paulo ” ?

                      A resposta enigmática, neste caso, se dá através da assertiva pela qual o Policial Paulo é conhecido dentro da Polícia, ou seja, pela sua alcunha, apelido. Nome, adjetivo, aposto explicativo porque é tratado pelos colegas de serviço. O seu codinome , “diminutivo” carinhoso que lhe atribuíram através dos anos passados entre os corredores e escadarias das Delegacias de Polícia, talvez, até, pelo espírito alegre e pela boa vontade com que executa as suas funções, alusivo também a sua diminuta estatura, seus cerca de apenas um metro e meio de cumprimento: “ Paulinho Pouca Sombra ”, numa referência proporcionalmente inversa à grandeza agigantada da sua personalidade e declarada honestidade: Firmes e inexoráveis.

                      Fato marcante, outro dia, estava eu diante da Delegacia de Homicídios, após o meu expediente policial, e, acalmando meus nervos na espuma suave de uma tulipa repleta de chope gelado, no barzinho logo em frente, já demovido da atribuição funcional, quando, ao olhar para o outro lado da rua, lá se encontrava o “Paulinho”, na árdua missão de conduzir, as turras, diante da oposição ofertada, um elemento suspeito, flagrado em delito.

                      Disseram-me os populares, no frigir dos acontecimentos, que teria o elemento tentado assaltar a Padaria local, logo ali em frente.

                      Constatando, no entanto, que a situação estava sob o controle do bravo Policial, continuei na importantíssima tarefa de esvaziar o vasilhame que continha o meu chope gelado, sem maior atenção dispensar ao ensejo.

                      Passados alguns dias, no mesmo local, enquanto deliciava-me, eu, um novo chope gelado, eis que deparo-me, novamente, com o concuspiciente Policial, Paulinho, ao meu lado, desta vez também deleitando-se por detrás de uma viçosa tulipa. Afinal, ninguém é de ferro.

                      De imediato, reprisando o acontecimento do dia recém passado, questionei o ilibado Policial sobre o ocorrido, o por que daquela condução forçada de dias atrás, pelo que foi ele logo esclarecendo-me, com as devidas cautelas de estilo: “Ora, o individuo detido havia ido à Padaria em questão para tomar satisfações com o Padeiro, com o Confeiteiro, com o Balconista, com o Entregador e outros mais, quem estavam a flertar com a sua Esposa, também funcionária do estabelecimento ”, e, quando a polêmica adulterária transformou-se em efetivamente briga, ele, Paulinho, de serviço, fora logo acionado para resolver o impasse. Mas, eis que no local, ao tentar dissuadir a briga, convencendo o Corno-traído que tomasse, no Juizado Cível, as medidas legais cabíveis, que se separasse da sua Esposa, ou algo parecido, foi logo repelido, pelo Galhado , quem pronunciou contra Paulinho palavras inadmissíveis, obscenas e de baixo calão: “Sai para lá, seu Velho Safado”.

                      Dito isso, inapelavelmente, ante ao desacato e a insensatez do meliante, o Policial Paulo, mais do que correto, conforme dispõe o Estatuto que o rege, sabiamente, usando da força necessária e dos meios adequados, levou-o à presença da Autoridade Policial, para sanar a demanda conjugal estabelecida, como de fato.

                      Esclarecido-me o passamento de vésperas, em viva voz e alto som, pelo próprio protagonista (Esse foi o meu erro!), emendei o seguinte comentário: “Ah, entendi, Paulinho. Você fez muito bem em prender o tal Corno, que, afinal, ao meu ver, foi a verdadeira Vítima da generosidade cometida pela  sua Mulher, infiel. Percebo, no entanto, que, até te chamar de “Safado”, é coisa normal, com a qual você já está acostumado. Não é sequer desacato. Mas te chamar de “Velho”. Isso não. É crime inadmissível. Tinha que prender, mesmo, o Sacana”.

                      Sem titubear, uma vez feito o comentário imbecil, brincadeira de mau gosto da minha parte, “ Paulinho Pouca Sombra ”, no alto de seus respeitáveis, quase, sessenta anos, ativos e bem vividos, foi logo metendo a mão no bolso e pagando toda a despesa, saindo ensandecido.

                      Ficou meses inteiros sem falar comigo. Figuraça! Digno de todo e maior respeito!

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