Eles SÓ Usam Black Tie

Por : Raymundo Araujo Filho

Outro dia, visitei em S ão Paulo o coordenador da Pastoral Operária de São Paulo, o metalúrgico aposentado e valoroso militante político  Waldemar Rossi. Uma amizade internética que já vai há uns poucos anos. E só agora pude conhecê-lo pessoalmente, pois sua obra política, acompanho desde sempre. É, na minha opinião, um basista clássico, e dos bons. E com um olhar generoso sobre a humanidade. Além de um grande formulador.

Conversamos sobre vários assuntos e pude ministrar para o coletivo Girassol, do qual participa ativamente, uma pequena palestra sobre A Reforma Agrária da Libertação. Sugerida por ele, aos seus companheiros e companheiras.

Ganhei de presente uma pequena publicação O Reverso do Avesso (ou Avesso do Reverso?), que contém vários artigos sobre os gloriosos momentos do sindicalismo não apelegado dos anos 70, origem do PT.

Um dos Artigos era do próprio Waldemar Rossi, com uma visão preciosa e detalhista da ação democrática e pela base que culminou com a primeira greve geral dos metalúrgicos de São Paulo (Capital), cujo sindicato era controlado pelo Joaquinzão, com apoio do PCB, PC do B e MR-8 e suas políticas de colaboração de classes. O PCB hoje, parece ter rompido com esta tática, embora tenha apoiado aqui e ali, os “menos piores” nas eleições do segundo turno, como em POA, votando na petista Maria do Rosário.

Em algum momento, nos reportamos ao filme Eles Não Usam Black Tie, baseado na obra de Gian Francesco Guarnieri.

Disse para o Waldemar Rossi que eu considerava o filme bem feito, com pelo menos três fantásticas atuações (que eu me lembre) da Lélia Abramo, Bete Mendes e Francisco Milani. Mas, objetei que não compartilhava com a visão histórica do filme, muito conservadora, na linha da colaboração de classes, execrando todos aqueles que optavam pela rebelião sindical naquele momento.

Então, ouvi um relato do próprio Waldemar Rossi, que faz com que eu me ache um privelegiado, por ter tido esta oportunidade ao vivo e a cores, vindo de um dos ativos organizadores daquela greve. E comendo umas deliciosas trufas, feitas pela jovial Célia, sua esposa e companheira de luta, há tantos anos. Êta casal porreta, este!

Primeiro, Waldemar relatou-me todo o processo de base e democrático, com a massa comparecendo às reuniões sindicais, enfrentando com o estatuto na mão, as etapas para a deflagração da greve histórica. O filme em questão, manipula os fatos, falseia a história e quer mostrar ao público que aquilo foi obra de meia dúzia de “radicais e porra loucas”, aliados dos patrões e da burguesia, pela “radicalidade” que propunham. Uma simples greve. Mas em tempo de Distenção Gradual, Lenta e (in)Segura, do ditador general Geisel, com o qual, neste quesito, os partidos citados e aliados do Joaquinzão se alinhavam.

Depois, fui lembrado neste relato, que o assassinato do bravo operário Santos Dias foi obra de um Policial Militar (não me lembro o nome agora) mandado para reprimir o Movimento grevista., visto e reconhecido por testemunhas, E em juízo. O Filme , mentirosamente aponta um policial civil, como executor do valente operário brasileiro. Para não “ferir susceptibilidades”.

Mas, a parte mais contundente do relato de Waldemar Rossi ainda estava por vir. E toma de comer os deliciosos recheios das trufas caseiras, feitas por Célia, já noite adentro.

Houve um grande e famoso encontro para discussão sobre o filme Eles Não usam Black Tie, no teatro Tuca, com toda a esquerda presente. E gente da área cultural em peso.

Na mesa, os responsáveis pelo filme, mais Lula, Aurélio Peres, Waldemar Rossi, Bete Mendes e Lélia Abramo.

Os primeiros, deram toda a tonalidade de como deveria ser o debate, com o incessamento daqueles que tudo fizeram para naufragar o legítimno e democrático movimento grevista, que colocou o Sindicato de São Paulo par e par com os do ABCD paulista, e imprensando na parede o Joaquinzão  e seus aliados, completamente refratários às novas expressões não apelegadas do Movimento Sindical, inclusive o Lula, na época... na época, eu disse.

Evidentemente que Lula ou jogou mesmo para a platéia, ou como inculto estrutural (que perdura até hoje), não entendeu patavinas do que viu. Fico com as duas opções. Lula consegue coisas incríveis...

Chega a vez de Lula falar e, surpreendentemente, corrobora com todo aquele atraso ideológico e falseamento da verdade, fazendo jogo para a platéia, elogiando o filme,  não só na sua realização, mas na história fraudulenta, contada como verdade.

Aurélio Peres que participou de muitas assembléias com uma enormidade de metalúrgicos que apoiavam a Oposição Sindical e sabia da democracia de base estabelecida para a deflagração da greve, além de ter sido amigo pessoal do Santos Dias, também subscreveu o filme.

Aí, chegou a vez de Waldemar Rossi falar, visto que foi um dos grandes ativistas e articuladores da greve, provavelmente retratado (“homenageado”) através do  carrancudo personagem “radical inconseqüente” interpretado por Francisco Milani.Há um detalhe da aliança de casamento que usava, que nos induz a pensar isso.

O metalúrgico Waldemar, que pode ser firme, mas não carrancudo (muito ao contrário, pessoa amorosa que é), botou a boca no trombone e, na sua fala, denunciou a farsa que o filme impõe como verdade, tentando formar opinião, contra a Oposição Sindical da época. E as políticas que criavam o PT como uma alternativa ao reformismo e colaboração de classes vigente nas esquerdas.   

Disse o que tinha de dizer, restabelecendo a verdade dos fatos, sequer recebendo um olhar de Lula, que a esta altura já devia estar querendo ser a Koala exótica que é hoje, bichinho de estimação da burguesia e reacionários em geral, além dos fisiológicos de esquerda e de direita.  

Nenhum zumbido, além do mal estar na platéia. Todos calados, ouvindo um bravo a recompor a verdade que arte nenhuma, seja por que motivo for, pode deturpar, principalmente para fazer combate político com gente do Povo. Como ficção ainda vá lá. Mas é pobre. E o filme não se apresentava como ficção.  

Em seguida falaram Bete Mendes e Lélia Abramo, de certa forma corroborando a fala de Waldemar Rossi, com os limites que as suas situações de atrizes do filme  impunham.

Waldemar Rossi, ainda me contemplou com o relato que foi levado de carona para casa pelas duas atrizes que lhe disseram claramente que não concordavam com a versão do filme, e nele trabalharam como atrizes apenas, não sugerindo ou interferindo no roteiro.

Assim, deixo aqui então, uma colaboração para a sessão do filme, a ser exibido dia 28/10/2008, pela Casa da América Latina, e que não poderei estar presente (estou em viagem). Eu não poderei, mas acho de bom tom que convidem o Waldemar Rossi, para estar no Rio, para participar do debate. Todos aprenderiam muito, tenho a certeza.

E espero que o PCB esteja realmente disposto a romper (como sinaliza hoje) com o documento de Março de 58, quando adota o Desenvolvimentismo de JK (e do capital Internacional), como política e que, ao meu ver, tanto mal fez para as esquerdas brasileiras.

OBS: Todos os adjetivos e julgamentos de valores que o texto contém são meus. De Waldemar apenas a descrição dos fatos políticos e sua opinião política sobre eles.

*Raymundo Araújo Filho é médico veterinário homeopata e acha que a mentira histórica não pode persistir. raymundoaraujobr@yahoo.com.br

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