“ THUNDERCATS - O REI DA MONTANHA ” : UM CONTO DE ANO NOVO

Por : Pettersen Filho

Eu sempre gostava de conversar com o meu amigo João Leite de Almeida, para quem, inclusive, dediquei um Livro.

Pessoa de origem simples, lá das bandas mineiras do Caparão, venceu na vida por mérito próprio, enganando a pobreza que o destino lhe pregou originalmente, tendo formado-se em Filosofia e História, fato que lhe proporcionou, acrescido a sua sensibilidade natural, uma visão de Mundo subjetiva e humanitária.

Com o passar do tempo, enriqueceu, pelo menos para os padrões monetários da Sociedade, sagrando-se Cooproprietário de uma Rede Particular de Escolas, possuindo Apartamento de Cobertura, em bairro nobre da cidade, e, até, o luxuriante deleite de ter uma Casa na Montanha, no Belo Município de Pedra Azul/ES, bem defronte a Pedra do Lagarto, de onde se pode contemplar todo o Vale, mais abaixo.

Certa feita, entre um pilequinho e outro, que costumeiramente compartilhávamos em nossas divagações, Ele contou-me uma passagem da sua vida, a qual nunca me esqueci, de quando ainda era um simples Agente Social, junto a um desses Órgãos do Judiciário, afeto aos cuidados com o Menor-infrator, recolhidos por transgressão Penal.

Narrou-me Ele que na Casa Correcional, onde trabalhava, em conjunto com outros agentes, conheceu um Jovem, muito especial, um tal de “ Thundercats ”, como era chamado pelos colegas. Um adolescente hiperativo e muito problemático, o qual, tentando dissuadir do Caminho do Crime, com muita habilidade humanista, dom que lhe era peculiar, tentou modular, com conselhos e mais conselhos...

Assim, narrou-me, foi que, conversando com o Jovem-homem, incutiu-lhe a idéia de que, sempre que estivesse em momentos de ira, de fúria intensa, por via de regra, era necessário que se mantivesse calmo e a sereno.

Recomendara ao Rapaz, já vendo ali enrustida uma tremenda capacidade de liderança e iniciativa, que, quando se visse em dificuldades incontornáveis, com algum problema ou aflição, segundo Ele, o ideal seria que se afastasse por alguns minutos: “ Que subisse no “Alto da Montanha” para que, de lá, numa visão metafórica, pudesse melhor, na visão do Todo, refletir sobre o problema, e, assim, melhor se posicionar, dentro de uma analise mais completa e conjuntural

Assim o fez.

João, segundo o seu relato, sentia no Jovem muita busca e determinação, embora, devido às dificuldades inerentes aos trabalhos na Instituição, lidando com jovens carentes, geralmente envolvidos com drogas e com o Crime, sem obter do Estado, ou mesmo dos Pais, apoio estrutural ou medidas de carinho, no entanto, sentia no encargo mero paliativo, algo assim, como secar gelo: Os jovens e os erros se repetiam num frenesi sem fim...

Foi quando, dias depois, deu desfecho à estória o Professor João Leite: “ Estourou uma Revolta no Presídio e os Adolescentes-infratores tomaram de assalto o local, quebrando tudo e ameaçando os servidores ”.

Contou-me, ainda: “Foi quando, no ápice da Revolta, um grupo de jovens partiu para cima dos Monitores, dentre os quais Eu, prontos a precipitar contra nós todo o ódio das suas parcas vidas...

Oportunidade em que, do nada, surgiu o Thundercats, determinando: “Gente, para. Não vamos fazer nada com Eles, não. Eles não têm culpa pelo que está acontecendo.”, no que foi prontamente atendido .”

Ato continuo, arrematou, dirigindo-se para o João Leite, em meio aos demais delinqüentes, satisfeito e debochado com a sua súbita liderança, protocolizando: “ Aí, Teacher: Eu subi a Montanha!

João Leite, contudo, provavelmente, ora acolhido, lá na sua Casa da Montanha, parece-me de fato, que, no decorrer dos anos esqueceu-se do aprendizado. Da Lição que ensinara.

Lá, no frio, alto e escuro, da sua Casa, adoentado e esquecido pelos verdadeiros amigos, lá de cima, parece que não consegue mais enxergar o Inatingível Vale que ora o cerca.

Quanto ao Thundercats, contou-me: “Dias depois, já em liberdade, morreu. Provavelmente Vítima do dia-a-dia urbano da Grande Cidade.

Da lição aprendida: “Desejo a todos um Feliz Ano Novo.
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